Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Diplomacia comercial e guerra à corrupção

A história dos conflitos ensina que, numa batalha, muitos inocentes morrem. Na guerra justa que se trava hoje no Brasil contra a corrupção, uma das mais importantes ferramentas para a inserção competitiva das empresas nacionais na economia global encontra-se no meio do fogo cruzado. Trata-se da legítima e indispensável função de promoção comercial e atração de investimentos por parte dos postos diplomáticos do Brasil no exterior.

Nos últimos dias, noticia-se que diplomatas teriam auxiliado empresas brasileiras de construção civil na obtenção de informações e mesmo em gestões junto a possíveis clientes governamentais estrangeiros. Telegramas enviados ao Itamaraty por nossos postos diplomáticos em países como Argentina, Argélia, Portugal ou Haiti dão conta de que alguns diplomatas estão atentos e atuam em favor de empresas brasileiras quando oportunidades de negócios se apresentam. O que há de errado nisso? Nada.

A moderna visão que se deve conferir ao papel da diplomacia compreende uma incisiva participação da política externa como alavanca da construção da prosperidade. Isso vale para o Brasil ou para qualquer outra nação. Aliás, a tradição da diplomacia brasileira, infelizmente, é de fraca orientação pró-negócios. Nossos postos no exterior estão muito mais para opacos templos de solenidade do que vibrantes agências de promoção do Brasil.

A legítima tarefa da promoção comercial não pode ser vítima de uma ‘bala perdida’ da indispensável investigação de abusos

A política externa deve distinguir quais empresas nacionais ajudar e quais relegar a segundo plano? Claro que não. Cabe a um banco de desenvolvimento como o BNDES financiar contratos artificialmente inflados de empresas brasileiras exportadoras de serviço junto a governos estrangeiros para que parte dos recursos seja canalizada a partidos políticos? Óbvio que não.

No entanto, nada há, em princípio, contra funcionários do serviço exterior ou mesmo ex-chefes de Governo desempenharem funções de diplomacia empresarial. Bush pai, Clinton, Blair, Giscard d’Estaing (para ficar apenas em alguns nomes) – todos foram protagonistas da promoção das empresas de seus países durante e depois de seus mandatos políticos.

Essa questão toca no próprio âmago do que deva significar o propósito da política externa. Afinal, em matéria de comércio, negócios e investimentos, se a diplomacia não trabalhar em prol dos empreendedores brasileiros, ela serve para quê?

Toda a estonteante arremetida chinesa rumo à condição de superpotência comercial se deu sob o amparo de uma agressivíssima diplomacia empresarial. Os postos diplomáticos chineses na América Latina e, sobretudo, na África, são cabeças-de-ponte das grandes empreiteiras chinesas. Atuam com mão pesada junto aos governos locais para a obtenção de polpudos contratos de infraestrutura.

No estratégia comercial exterior dos EUA, criou-se mesmo a figura do adido que opera em todos os postos norte-americanos pelo mundo lado a lado com empresas, diplomatas e seus objetivos mais amplos de política externa. Para Washington ou qualquer capital europeia, “the business of diplomacy is business”.

Países da Ásia-Pacífico, como Austrália e Nova Zelândia, mantêm escritórios conjuntos no exterior para auxiliar suas empresas privadas a abocanhar novas fatias do mercado mundial. As embaixadas da França, EUA e Suécia em Brasília estavam briefadas até os dentes e seus titulares atuaram fortemente para que Dassault, Boeing ou Saab emplacassem seus caças na venda bilionária que tencionavam realizar à Força Aérea Brasileira.

A legítima tarefa da promoção comercial não pode ser vítima de uma “bala perdida” da indispensável investigação de abusos. Demonizar a atuação da diplomacia empresarial apenas tornará o Itamaraty mais inútil ao nobre objetivo do desenvolvimento brasileiro.

Fonte: Folha de S. Paulo, 22/7/2015

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