Do parque jurássico ao Grande Salto

Paulo Guedes

A fauna política brasileira é pobre em diversidade. Conservadores e social-democratas são as espécies dominantes em nosso ambiente. Predadores oportunistas negociam apoio partidário a despreparados idealistas. O aprendizado é lento,
e a barganha, permanente. Os avanços nem sempre resultam de uma reavaliação intelectual por parte da social- democracia hegemônica, mas sim das exigências práticas ao atendimento de necessidades da população.

Esse é o pano de fundo para o jurássico confronto que se trava entre tucanos e petistas acerca das privatizações. Estariam todos agora aderindo às temíveis práticas “neoliberais” por uma conversão ideológica ou porque precisamos de aeroportos? E trata-se mesmo de privatizações ou “apenas” leilões de concessão para a prestação de serviços aeroportuários?

Sempre achei divertida a pretensão dos tucanos quanto à paternidade das privatizações. Bem como seu pedido de royalties aos petistas pelas ideias de autonomia do Banco Central (após uma verdadeira saga pela destruição da moeda brasileira), austeridade fiscal (uma lei de responsabilidade exigida pelo FMI) e câmbio flutuante (após a perda de US$ 50 bilhões na reeleição de FHC). Se patenteadas por Milton Friedman, da Universidade de Chicago, os tucanos seriam processados por pirataria. Sua hesitação nas campanhas presidenciais de Serra e Alckmin, sintoma da paternidade involuntária, deixava em desconfortável isolamento seu ex-presidente.

O fato é que, fugindo do parque jurássico, teremos extraordinária oportunidade. Nossos programas de investimento
estimam gastos de US$ 530 bilhões em infraestrutura e logística ao longo dos próximos cinco anos. Estimam-se também investimentos de US$ 420 bilhões em petróleo, gás e energias renováveis até 2015. Os investimentos programados exclusivamente na área de eletricidade passam dos US$ 500 bilhões até 2020. Ora, o que não falta no mundo é dinheiro para financiar o Grande Salto de nossa infraestrutura.

Os países avançados estão parados para conserto. A liquidez permanecerá abundante e o dinheiro, barato por longo tempo. Os maiores financiadores e os melhores operadores internacionais de infraestrutura estarão disponíveis para a ampliação de nossos portos, aeroportos, hidrovias, em associação com financiadores e operadores brasileiros. Haverá cooperação e transferência de tecnologia, no melhor estilo chinês.

Fonte: O Globo, 13/02/2012

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