Dois exemplos que o Brasil não pode seguir

Muito se tem falado sobre a crise do capitalismo global. Analistas apressados acham que é o fim da velha ordem. Particularmente no Brasil, muita gente confunde a conveniência de uma política fiscal contracíclica (o governo gastar mais quando a economia está retraída) com o que seria uma nova era de expansão permanente dos gastos públicos, já que o capitalismo teria dado um suspiro final. Nada mais equivocado. Esse é um remédio keynesiano de curto prazo.

É inegável que, após inédito ciclo de expansão sincronizada da economia mundial, mergulhamos em 2008 em um buraco negro. E, sim, o universo econômico entrou em processo vertiginoso de contração. Mas, apesar de seu alcance global, o epicentro da crise, a falha sistêmica, foram os excessos do “capitalismo financista” anglo-saxão.

Sem dúvida, na economia americana houve um sucesso em curto prazo das políticas de reaquecimento da economia ou reflação da demanda prescritas por Keynes. Mas os novos sintomas da crise se manifestam exatamente no antigo paraíso da social-democracia europeia. Estão em queda livre as economias mais frágeis da Zona do Euro. Se a expansão excessiva de crédito imobiliário atingiu a Espanha e a Irlanda, foi o estouro das finanças públicas que fulminou a Grécia e ameaça agora Portugal.

O que se encontra em crise atualmente na Europa são os excessos praticados por uma social-democracia hegemônica que ainda não reagiu aos desafios do “capitalismo eurasiano” do século XXI. Excesso de gastos públicos, um modelo insustentável de previdência social, mercados de trabalho inflexíveis, impostos excessivos, discriminação contra imigrantes. Há uma série de problemas a exigir reformas que a social-democracia europeia – como a brasileira – não sabe ou não quer enfrentar.

O crescimento mundial vai para a Ásia. Os europeus têm de trabalhar mais ou exigir menos do Estado

Os anjos caídos do paraíso, como Grécia e Portugal, não têm mesmo para onde fugir. O euro trouxe, no início, crédito fácil e barato para as economias da região. Mas a disciplina fiscal imposta pela moeda única corrige agora os abusos. E, quando baixou a maré do crédito, apareceu quem nadava pelado. Não é o euro que está em crise, e sim os países com finanças frágeis que não podem mais usar a desvalorização do que seriam suas também frágeis moedas como instrumento de ajuste (diriam os gregos) ou como rota de fuga à disciplina exigida (diriam os alemães).

No momento em que aderem à Zona do Euro, as economias nacionais perdem realmente um instrumento macroeconômico para correção de rumos. A crise – e sua solução – ocorre exclusivamente na dimensão fiscal. É reduzida a um problema de finanças públicas, que pode se tornar longo e penoso. Disso sabemos muito bem os brasileiros, que passamos duas décadas a enfrentá-lo, ainda que podendo recorrer a sucessivas desvalorizações cambiais, como de fato fizemos.

Portugal e Grécia são apenas os mais frágeis de uma espécie agora sob ameaça de extinção. Os fundamentos econômicos do paraíso social-democrata europeu foram corroídos pelo “capitalismo eurasiano”, que é alimentado por formidável taxa de poupança, desimpedido de encargos sociais e trabalhistas, estimulado por juros baixos e câmbio artificial.

O excesso de gastos públicos, mesmo financiado por impostos também elevados, é insustentável em longo prazo, como deverá ser amplamente demonstrado nos próximos anos pelo suplício de gregos, portugueses e outros mais. Definitivamente, não é para lá que o Brasil tem de correr.

O panorama em síntese é o seguinte: são insustentáveis tanto os excessos de bancos centrais e financistas anglo-saxões quanto os excessos da obsoleta agenda social-democrata europeia ante a ferocidade do “capitalismo eurasiano”. O eixo de crescimento da economia mundial desloca-se para a Ásia. Os europeus têm de trabalhar mais ou exigir menos benefícios do Estado. Os americanos não podem acreditar que imprimir papel é a chave para o enriquecimento. É essa velha ordem que está em xeque.

 

Fonte: Revista “Época” – 30/04/10

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