Tendo escrito sobre o endividamento familiar semana finda, projetava ocupar-me do enriquecimento do baixo empresário, cuja situação gravosa motivara a criação de um plano, o Refis, para enfrentar a questão da insolvência de uma categoria. Ocorreu, porém, fato de tamanha gravidade que me fez trocar de tema, até porque foi e vem sendo fartamente publicado exatamente por sua contundente relevância.

Em outros tempos, o ministério era feito pelo presidente e poucas eram as influências externas. Venceslau Brás, por exemplo, declarara que não consultara a ninguém ao escolher Carlos Maximiliano para a pasta da Justiça, quando o ilustre rio-grandense não era do jardim do castilhismo; e quando se falou da influência do chefe gaúcho este não demorou em dizer que não fora consultado para nada. Os critérios a serem observados eram o geográfico e de hierarquia política. São Paulo e Minas tinham lugar cativo nos governos, o Rio Grande do Sul só em duas ocasiões não teve participação no governo, na presidência Campos Salles e na de Arthur Bernardes por motivos conhecidos. Também houve casos especiais, o Barão do Rio Branco, por exemplo, laureado nacionalmente pelas vitórias nos casos das missões e da Guiana Francesa, converteu-se numa expressão singular; fora deputado uma única vez durante o Império, contudo, foi chamado por Rodrigues Alves para dirigir o Itamaraty, deixando para sempre a Embaixada em Berlim.

É claro, os tempos eram outros. Passado o tempo das “Câmaras unânimes”, nem sempre os governantes contavam com maioria parlamentar. Verdade é que a primeira coligação no plano federal se deu por iniciativa do presidente Dutra, embora contasse este com sólida maioria parlamentar na Câmara e no Senado: o UDN e o Partido Republicano “presidido por Arthur Bernardes e não de outro, contemporâneo, de outra origem, e parece de diferente finalidade”, que passaram a integrar o governo, com finalidade específica. Depois disto, as casas legislativas se fracionaram mais intensamente e se tornaram correntes os governos federal e estaduais, sem apoio parlamentar, em consequência coligações consertadas antes da eleição, ou depois delas, se tornaram comuns, embora fossem distintas.

Transcorrido mais de meio século, nem é preciso dizer que muitas coisas aconteceram no entretempo. De bem e de mal, segundo alguns mais de mal que de bem. O fato é que atualmente veem-se comportamentos bem diferentes e suponho não errar em sua caracterização. Não é segredo para ninguém que a distribuição dos ministérios aos aliados pré-eleitorais e às adjacências posteriores à eleição, fazem-se segundo critério de maneira diferente. Suponho não exagerar dizendo que há ministérios que são distribuídos como se fossem em pagamento, pro solvendo, pelo voto cativo em favor do governo até o fim deste. Faz lembrar um “pecúlio castrense” de um longínquo passado. Salvo engano, o que teria sucedido com o Ministério dos Transportes, a ser exato o noticiado a respeito dele na última semana, é de corar um frade de pedra. Além do mais é de perguntar-se se essas práticas começaram no governo atual ou no anterior, uma vez que, personagens do atual ocuparam o angelical ministério desde o início do autoproclamado o maior e melhor governo de todos os tempos. A cada notícia que chega apalpo-me para ver se estou acordado ou sonhando. Nos meus 80 e tantos anos de vida, com seus três quartos de século de vida pública, nunca vi nem imaginava pudesse ver o que está sendo diariamente divulgado. Esta a realidade que pretendia analisar neste artigo e me vejo forçado a suspendê-lo sem encerramento até a próxima semana, se semana ainda existir até lá, porque a dose já seria animal, ainda que dissociada das anteriores.

Fonte: Zero Hora, 11/07/2011

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