O Globo, 14 de abril de 2005

Análises dos acontecimentos recentes no Oriente Médio têm mostrado que a convergência, nos EUA, entre interesse nacional e defesa de valores universais tem afetado o destino de outros povos. O chamado da liberdade toca fundo no homem e, na sociedade da informação, vem se tornando força à qual as tiranias têm mais dificuldade de resistir. Tal convergência não ocorreu sempre, nem para todos os países igualmente, por três razões principais: 1. limite natural da capacidade de intervenção dos EUA; 2. limite da capacidade de compreensão de processos históricos pelos formuladores de política externa americanos; 3. limite da disposição do povo americano de bancar a defesa da liberdade. Com Truman e o Plano Marshall, a partir de 1947, os EUA promoveram a democracia na Europa Ocidental (exceto Portugal e Espanha) e no Japão. Em outras áreas, como a América Latina, predominou a política de aliança com inimigos do comunismo, fossem ou não ditaduras. Ao longo do tempo, houve mudanças na estratégia da Guerra Fria: – Carter (1977-1981): a defesa dos direitos humanos favoreceu a democratização na América Latina, a ponto de ter sido reconhecida pelas mais lúcidas lideranças da esquerda na época; – Reagan-Bush pai (1981-1993): a desestabilização do comunismo triunfou no império soviético, provocando a mais intensa democratização da história, mas não na China, onde a rebelião estudantil de 1989 foi violentamente reprimida, sem reação dos americanos. Os EUA apoiaram alguns regimes autoritários pró-americanos (Indonésia) e desestabilizaram outros, estimulando a democratização (Filipinas, Coréia do Sul e África do Sul). No Oriente Médio, mesmo favorecidos pela coalizão para a libertação do Kuwait, não derrubaram o regime de Hussein — um dos mais extremos totalitarismos da História — e abandonaram à sua sorte a rebelião dos xiitas; – Clinton (1993-2001): a promoção da democracia só não foi retórica nos Bálcãs, na Palestina e no Haiti; – Bush, desde 2001: Afeganistão e Oriente Médio têm dado sinais de eficácia na promoção da liberdade, o que não se estende, porém, a todas as áreas do mundo. Os EUA toleram a regressão autoritária na Rússia, embora tenham apoiado movimentos democráticos anti-russos na Geórgia e na Ucrânia; continuam acomodando com a China; mantêm aliança com regimes autoritários na Ásia Central e no Paquistão, no combate ao radicalismo islâmico. Assim, apontar a positividade das intervenções dos EUA no mundo não implica adesão incondicional às estratégias de Bush. Mas a reação imediata e indiscriminada, contrária a qualquer ação americana no mundo, sem levar em conta efeitos libertadores, ou é preconceito ou reflete a crença em utopias totalitárias que já impuseram grande sofrimento à Humanidade. No Brasil, é verdade, já experimentamos o lado negativo da política americana, o que explica nossas dificuldades de entender seu papel no sistema internacional, mas não se justifica que continuemos ressentidos e presos ao passado. Ao supervalorizar acontecimentos negativos menores, relatar fatos importantes fora do contexto que dá sentido a eles, justificar qualquer agressão contra os EUA como justa reação à arrogância imperialista de Bush, formadores de opinião tratam assuntos internacionais com parcialidade, contribuindo para que o povo brasileiro seja dos mais antiamericanos do mundo. Foi numa democracia madura que Bush foi eleito pela segunda vez, após a exposição da população a debate sobre o papel dos EUA no mundo. Kerry, aliás, também defendeu a promoção da liberdade no combate ao radicalismo islâmico e na construção da ordem mundial. Não há garantias de que os sinais que chegam do Oriente Médio se consolidem num novo tempo de democracia, desenvolvimento econômico e tolerância religiosa. Mas o leitor brasileiro deve abrir-se aos diferentes ângulos pelos quais os fatos devem ser analisados para que não se veja, contrário à sua natureza, opinando com base em doutrinas e preconceitos.

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