Tudo indica que a crise atravessou o Atlântico, conforme disse em Nova York, no dia 22 do corrente, quando da 63a Assembléia Geral das Nações Unidas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reafirmando temores já expressos em 17 de setembro do ano passado, quando, em Madri, avisou que alertaria o presidente George W.Bush, no sentido de que ele não deixasse a quebradeira das hipotecas “atravessar o Atlântico”.

O erro de geografia é relativo diante da percepção do presidente, inclusive, de que a crise na maior economia do planeta, na primeira hipernação de um mundo globalizado e com plena consciência de si próprio, tem muito de hipocrisia. Hipocrisia porque se fala muito pouco da pior dimensão do capital financeiro: a especulação pela especulação, que leva à volatilidade e à volubilidade.

Falei em relatividade porque de fato a crise atravessou todos os oceanos, pegando na sua rede os peixes vivos (e mortos) do planeta. Não há duvida, como afirmam os entendidos, que a crise vai passar. Afinal, como tenho tentado aprender, trata-se de um ciclo dentro da economia de mercado, esse sistema relativamente desligado, conforme lembra a crise, de todas as dimensões sociais do dinheiro, e que funcionaria independentemente de agenciamentos externos. Se o mercado é a instituição humana que opera com mais autonomia, sem se deixar comover por apelos, rezas e até mesmo pela tal “vontade política” que, entre nós, ainda é uma palavra de ordem do messianismo e do populismo, não deixa de ser curioso verificar como ele, como tudo o que é, afinal de contas humano, é também afetado por fatores sociais.

Conhecemos o valor do mercado enquanto instrumento de socialização do dinheiro que, por meio dele, amplia o seu poder simbólico permitindo realizar o sonho de ganhar muito com pouco trabalho. Sabemos também do seu imenso poder de, nas boas horas, difundir ganhos e, nos maus momentos (nessas crises que fazem parte dos tais “ciclos”), promover ruína e desespero. A aparente blindagem do mercado numa racionalidade fechada em si mesma, liberando a busca do lucro pelo lucro, torna a manipulação do dinheiro, enquanto papel, desligar-se de algumas de suas dimensões sociais. E são elas que, como fantasmas, emergem (ou retornam) nas crises. Por isso os economistas distinguem o “capital financeiro” de uma “economia real” que, conforme tenho ouvido, foi afetada pelo seu lado maligno. Tudo se passa, como dizem os que leram muito LéviStrauss, como se neste mundo iluminado pela ciência e pela tecnologia que dela decorre e da qual ela é uma dependente, essa tecnologia que torna tudo fácil e simples, reforçando a visão de um universo linear, íntegro, fácil de ser desvendado e articulado por fórmulas simples, a crise revelasse um lado terrível e desconhecido.

Todo mundo espera que o mundo se acabe numa colisão de astros; todo mundo sabe que o fim do mundo começa no Brasil; mas ninguém poderia supor que a coisa começaria “lá fora” e justo nos Estados Unidos da América: a mais exemplar e dinâmica economia do planeta. Os preços estavam muito altos; muita especulação; os bancos mudaram de função, dizem. Sim, mas se as premissas continuam as mesmas e o desejo de lucro é um dado da mais profunda realidade humana, de onde vem a crise? Dizer que existem ciclos, e que um momento virtuoso de lucros acabou, é dizer que tudo na vida tem um início, um meio e um fim. Então, suspeitam os leigos, tem algum buraco muito mais embaixo que ninguém fala. De dia, Wall Street é transparente, mas, à noite, transforma-se no seu oposto e, como um aterrador Mr. Hyde, pega seu navio e cruza o Atlântico que, com o perdão do lugar-comum, é o Rubicão das catástrofes do capitalismo financeiro. Ou seja, a ciência econômica, com suas perfeições, axiomas e tabelas infalíveis, também tem o seu lado imprevisível e inconsciente. E, com ele, seus motivos ocultos, seus desejos suicidas.

Ou, quem sabe, e muito mais fácil e nacional que isso, tem seus malandraços e seus ladravazes. Isso para não mencionar o desleixo com o qual a crise tomou força naquela “América” que, ao longo de sua história como sociedade do futuro, era um poderoso símbolo de coerência e de cautela. Se a honestidade é a melhor política tanto na vida quanto nos negócios, aonde foi parar essa vigilância tão americana quanto o “Apple pie” no caso das bolsas e do capital financeiro? Houve, sim, um cruzamento. E, nesse caminho, o presidente disse algo profundo quando comparou a crise a um cassino, percebendo o lado mais terrível de um mundo atrelado entre si, mas dependente de um país que, como nação soberana (e hiperpoderosa), se distingue de sua economia que, no entanto, domina o mundo. Onde estão os organismos internacionais para sancionar os Estados Unidos? Se fôssemos nós, como lembra o presidente Lula, já estaríamos batendo de frente com alguma receita. Dir-se-ia que ninguém consegue ser psicanalista de si próprio ou rir quando faz cócegas em si mesmo.

Mas como a economia é uma disciplina precisa, sendo, ademais, a ciência social do nosso tempo, deve-se pensar que sim. Mas, por via das dúvidas, rezar para que Nossa Senhora Aparecida, nossa padroeira, faça com que esse ciclo tenha uma curta duração.

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