É a memória, estúpido!

É irresistível uma comparação entre os resultados das recentes eleições no Brasil e nos Estados Unidos, dada a semelhança no comportamento dos eleitores de ambos países. Isto é, tanto lá como aqui é nítida a presença de dois  fatores que, entre outros, influenciaram a voz das urnas: a curta memória política da população e o já clássico refrão “É a economia, estúpido!”.

Nos Estados Unidos, a conjugação desses dois fatores foi imperdoável com o presidente Obama e o Partido Democrata. Impacientes com o lento ritmo de recuperação da economia e do emprego, os americanos esqueceram-se das agruras sofridas em 2007 e 2008, quando, sob a presidência do republicano George Bush, o sistema capitalista local sofreu o maior pesadelo desde a década de 30.

Apesar de o pior da tormenta ter sido controlado, a economia haver alcançado um satisfatório nível de estabilidade, a crise aguda no setor financeiro ter sido superada e a indústria automobilística encontrar-se em processo de recuperação, o fato de os índices de desemprego e de crescimento não terem ainda atingido patamares desejáveis, está sendo suficiente para azedar os humores. Em outras palavras, o fator “É a economia, estúpido!”, conjugado à mencionada curta memória política da população, conduziu ao voto de protesto.

Por outro lado, não foram adequadamente levados em conta os êxitos que Obama logrou ao implementar reformas como as do sistema público de saúde e  do mercado financeiro, ambas de extrema relevância. Na área externa, a retirada do Iraque e a ênfase dedicada à questão ambiental planetária são coerentes com suas promessas de campanha.

O resultado das eleições comprovou o quanto pesa na sociedade americana o sentimento de que a corrente de pensamento liberal (no conceito americano do termo), é considerada suspeita. São muitos os que acusam Obama, um liberal, de socializante, pois a reforma do sistema de saúde e outras propostas suas, inclusive a de não renovar a redução de impostos para os mais ricos (instituida por Bush), contêm um componente redistributivo social de renda.

No caso do Brasil, o fator “É a economia, estúpido” atuou no sentido de o contentamento da grande maioria do povo com a situação do país ter induzido o voto de aplausos à presidência Lula. Encantado com a imagem “nunca antes na história desse país”, o eleitorado vulnerável à escassez de memória política desprezou as conquistas alcançadas pelo país nos governos precedentes. A herança bendita recebida pelo presidente Lula caiu no esquecimento, inclusive do próprio PSDB. Não estou afirmando que essa foi a única causa da vitória de Dilma Roussef, mas sim que a desqualificação do passado atribuiu um sabor desagradável à campanha eleitoral.

Como se a exaltação aos méritos do governo Lula fossem incompatíveis com o reconhecimento ao trabalho de FHC e outros presidentes, forjou-se uma contradição desnecessária entre os êxitos recentes e o que foi construido ao longo da história. Além do mais, ofuscou-se na memória da maioria dos eleitores o conjunto de erros e omissões cometido pelos atuais ocupantes do poder.

Essa atitude não é saudável ao amadurecimento político do país, nem aos interesses da presidente eleita que, imagino, pretende governar para todos e desfrutar de uma imagem positiva na história brasileira.

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