Confesso minha perplexidade diante do quadro internacional. Começou ontem, de repente, sem chefes, e mais de um país já mudou de perfil, países que aparentavam solidez granítica.

A novidade era mais realçada porque o fenômeno irrompeu de maneira espontânea e pacífica. Ditaduras adultas, quer dizer, velhuscas, trintenárias, desmaiaram repentinamente e desmancharam-se como os morros de Nova Friburgo, que ninguém imaginava que a chuva os desfizesse como sorvete; pois mal começa o ano de 2011 e alguns daqueles monumentos fazem parte do passado.

Embora não haja relação visível entre o que veio a suceder no ano que se inicia e a estúpida invasão do Iraque pelo presidente Bush, à frente da mais poderosa máquina bélica já vista, não me parece se possa excluir um parentesco entre os dois fenômenos. Faz lembrar o que pode andar sob o degelo de massas polares e as ocorrências no Oeste asiático ou na serra fluminense. A menos que o dono do mundo tenha entrado a caducar ou se cansado das loucuras que se vêm cometendo ao longo dos tempos.

Eis senão quando a novidade, tendo subvertido o Egito, cruzou a fronteira e se instalou na Líbia, que vivia há mais de 40 anos o mais fechado dos reinados vitalícios. Em lugar de mostrar-se atento à voz da vizinhança, o poderoso monarca reagiu com extrema violência, que chegou a surpreender o mundo. Salvo engano, só recebeu o apoio de Cuba. Hoje, medra a guerra civil no veterano império de Kadafi.

Como ainda não aprendi a prever, limito-me a dizer o que me parece óbvio, o grande enigma reside no que deve acontecer nos territórios até agora mantidos sob o tacão armado e subitamente entregues não se sabe a quem, uma vez que a sociedade local não tem tradição democrática e não está livre de fortes preconceitos religiosos. O caso obviamente é dos países que estão se libertando do arnês ditatorial, mas não deixa de interessar ao conjunto das nações, especialmente das nações mais presentes no concerto universal, para servir-se de uma expressão velha e gasta. Não sei qual a influência eficaz que a ONU possa desenvolver na emergência, mas, como a necessidade é capaz de muito, não custa esperar alguma ajuda benfazeja.

Voltando ao plano nacional, peço perdão por insistir em fato recente, mas o faço tal a importância que lhe atribuo. O ex-presidente, nos estertores dos seus oito anos de festejados aplausos, proclamou urbi et orbi que seu governo era o maior e melhor de todos os governos do Brasil e promoveu formidável campanha publicitária comemorativa da efeméride. A propósito, antes eram 499 os veículos de comunicação que recebiam verbas do governo federal e passaram a 8.094, espalhados por 2.733 municípios, um aumento de 1.522%! Por que retorno ao assunto, se ele já foi divulgado? Não será por prazer, mas a senhora presidente anunciou o congelamento de R$ 50 bilhões e já se disse que a cifra poderá ser aumentada. Ora, é de supor-se que a chefe do governo não tenha feito o anúncio por desfastio ou para amargurar o povo ao qual prometeu servir. Estou convencido que o fez por ser de seu dever. Ora, só esse dado, sem falar em outros assuntos melindrosos, é o bastante para negar o exibicionismo delirante de seu antecessor. E isso parece irrelevante. Por entender que é da maior relevância é que voltei ao tema. Afinal, são R$ 50 bilhões, que não devem ser gastos por exigência da realidade. Ou não?

Fonte: Zero Hora, 28/02/2011

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