O Globo, 24 de maio de 2007

Ontem pela manhã apanhei um vôo da Gol de Curitiba para Congonhas.  Na partida, parecia tudo em ordem: check-in sem filas exageradas, andando rápido, embarque quase na hora. Passava pouco das 9hs e todos os passageiros estavam a bordo, já fechadas as portas do Boeing, motores ligados, todas aquelas instruções transmitidas. 

E nada. Mais alguns minutos e o comandante, algo sem graça, comunica: chove moderadamente em S.Paulo, e em Congonhas, os senhores sabem, a pista principal está em obras; de modo que ou o aeroporto pode fechar ou estará com número limitado de pousos; assim, estamos aguardando autorização para partir.

    Mais uns 30 minutos e o comandante, já constrangido, avisa: estamos partindo, mas ainda sem saber onde vamos pousar; pode ser em Congonhas, se abrir, em Guarulhos ou em Campinas, se não houver espaço em Guarulhos.

    Em resumo, o comandante apontou o jato para o norte e vamos embora. Lá pelas 10 e meia, o comandante volta ao microfone, se desculpando: estamos fazendo hora, dando voltas sobre Santos, enquanto esperamos orientação do tráfego para o nosso destino; continuamos com aquelas três possibilidades.

    Mais uns 20 minutos, por aí, e o comandante traz o veredicto final. Com voz meio envergonhada, avisa: Congonhas continua fechado, já Guarulhos recebeu muitos vôos que eram destinados a Congonhas e não tem mais espaço disponível para outras aeronaves; logo, vamos para Viracopos, Campinas.

Foi rápido esse último trecho. O pouso em Campinas, normal. Os passageiros continuavam absolutamente tranquilos, aparentemente acostumados, alguns até rindo cada vez que o comandante se desculpava.

O jato estaciona, o pessoal se prepara para desembarcar, os comissários ficam ali ao lado das portas e… nada. Volta a voz do comandante, cada vez mais constrangido, para pedir novas desculpas: é que também vieram muitos vôos para cá e … (hesita)  faltam escadas e ônibus para o desembarque.

    Mais quinze de minutos de espera, até que apareçam escadas e ônibus. 

    Daí em diante, correu tudo surpreendentemente rápido. Os passageiros foram direto do salão de desembarque para o ônibus, que partiu em seguida para …. Congonhas. Detalhe: alguns, mais apressados, procuraram táxis. Não havia, sabe como é, o movimento foi anormal.

De ônibus, com sorte, sem congestionamentos na estrada e na cidade, chegamos a Congonhas ás 13 e 15hs, mais de três horas depois do horário previsto.

    Desde o aeroporto de Campinas, passageiros vinham ao celular desmarcando compromissos, quase sempre profissionais: reuniões, aulas, apresentações, audiências.

    De novo, não ouvi explicações ou comentários raivosos. Ouvi muitos bem humorados, fazendo brincadeiras. O sentido geral era o seguinte: é assim mesmo, normal.

    Alguns até explicavam: considerando que passamos por Campinas, três horas de atraso não está mal.

    Esses eram os mais experientes, que davam a dica para estes tempos: você tem que dar uma boa folga; se o compromisso é de manhã, venha de véspera; se é à tarde, marque um vôo bem cedo; se você contar com umas quatro horas de atraso, só perde o compromisso se der muito azar.

    Eis um novo custo Brasil. As companhias aéreas gastam mais com combustível e com transporte extra, perdem vôos e passageiros (o avião que deveria estar em São Paulo às 10 hs e desceu em Campinas às 13 e 15hs, deixou de fazer várias rotas).

    As empresas gastam mais dinheiro com o deslocamento de seus funcionários. Serviços que poderiam ser feitos em único expediente – ida, reunião, volta – levam dois, três dias.

    Os passageiros, a maioria a trabalho, perdem tempo e dinheiro, especialmente aqueles profissionais por conta própria. Um consultor, por exemplo, já precisou reduzir o número de atendimentos fora de sua sede.

    Não há solução à vista. O PAC reserva R$ 3 bilhões para investimentos em todos os aeroportos do país, em quatro anos. Estudos mostram que só para os três principais de São Paulo, seriam necessários R$ 7 bilhões. Como vimos na prática: faltam pista e terminal em Guarulhos e Congonhas, faltam até escadas em Campinas.

    Se o governo lançasse um programa de privatização de aeroportos, aí sim, sobrariam investimentos. Como a ideologia não deixa, vá de véspera.

    Mas o pior é isso, essa adaptação a uma situação ruim, esse conformismo. É assim mesmo, não é? Aeroportos, emendas superfaturadas, greves no serviço público, tudo bem.

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