Nouriel Roubini ainda é celebrado como o economista que antecipou o colapso financeiro de 2008. E teria feito isso porque não caiu no canto de sereia do pensamento econômico dominante na época, liberal, pró-mercado, pela livre circulação dos capitais. Isso estava gerando bolhas, não crescimento real, dizia Roubini. Mas ele também previu, na sequência da crise, que os Estados Unidos passariam por uma longa recessão que duraria até hoje, abril de 2011. Errou. A economia americana está crescendo em um ritmo anual de 3,5%, em recuperação há vários meses.

O profeta do colapso também previu que o crescimento chinês cairia drasticamente, para algo perto dos 5% ao ano. Errou de novo. A China cresceu 9,1% em 2009 e 10,3% no ano passado.

Nesse caso, prevalece a tese de que a crise de 2008/2009 foi um colapso bancário — consequência de práticas imprudentes, falta de regulação e de fiscalização — e não a liquidação de um sistema econômico pró-mercado e da doutrina que o justifica.

Por outro lado, na própria saída da crise, governos e bancos centrais do mundo todo recorreram a políticas de forte intervenção do Estado na economia — estatizando empresas para impedir a quebradeira, salvando bancos com injeção de dinheiro público e imprimindo dinheiro para financiar pessoas e empresas. Não eram as políticas preferidas pelo pensamento econômico dominante antes da crise, mas vieram bem a calhar.

E, então, quem estava certo, quem estava errado? Depende das circunstâncias, do momento e do país.

Tomem o Brasil. O ministro Guido Mantega, representando uma corrente de pensamento de economistas, analistas políticos e jornalistas, sustenta que toda a história recente, da crise à recuperação dos emergentes, confirma que o neoliberalismo é um fracasso. Vai daí, acrescenta, confirma-se a doutrina neokeynesiana, logo interpretada como uma licença para a ampla intervenção do governo sobre a economia.

Mas desde quando a economia brasileira era tão aberta e neoliberal como, digamos, a americana? Não houve colapso bancário no Brasil porque as instituições financeiras, reguladas e limitadas pela economia travada, simplesmente não podiam emprestar tanto dinheiro para tanta gente, a juros tão baixos, como ocorria nos EUA.

Não tivemos bolha, certo, mas também não tivemos uma longa expansão econômica sustentada pelo crédito abundante e barato, como os EUA tiveram do final do século passado para o início deste. Lá, o crédito acabou sendo irresponsável, concedido com dinheiro inexistente, para devedores sem condições de pagar. Logo, o problema lá era limitar e controlar as ações dos bancos.

Aqui, era e é contrário. Juro muito barato lá, muito alto aqui. Empréstimos demais lá, e de menos aqui. Precisamos de mais e não de menos crédito de bancos privados. Tínhamos e temos muito crédito de bancos públicos com dinheiro subsidiado pelos contribuintes.

Nos EUA, o governo entrou em empresas, como a General Motors, para impedir sua falência. Aqui, o governo, antes da crise, já estava em muitas empresas estatais e privadas. Lá, companhias e bancos privados fracassaram, precisaram de dinheiro público. Aqui, o governo agora quer mandar em empresas privadas que funcionam muito bem, como é o caso da intervenção na Vale.

Lá foi falha de mercado, aqui era e é de governo. Permanece o enorme problema da ineficiência do Estado nos setores em que é dominante e controlador.

Reparem o nosso keynesianismo. A presidente Dilma diz que vai conceder aeroportos à gestão privada, porque o governo não dá conta disso, e ao mesmo tempo patrocina a intervenção numa empresa privada campeã.

Não é por causa do novo pensamento econômico. É simplesmente porque diversos setores do governo e da base governista querem uma parte dos lucros e dos investimentos da Vale.

Mantega e seu pessoal sustentam que o Estado precisa ter instrumentos — de gastos a controle de capitais e empresas — para orientar o mercado na direção correta. Ora, porque o governo não orienta na direção correta os Correios, a Infraero, a administração dos portos, a construção de estradas, e a educação, a saúde e a segurança públicas? O governo falha nisso tudo, sua obrigação, e depois seus teóricos querem colocar a culpa no neoliberalismo?

Vamos falar francamente. O Brasil se equilibrou, cresceu e superou a crise porque conquistou a estabilidade macroeconômica (nos fundamentos clássicos), beneficiou-se da onda de crescimento global, via comércio aberto e fluxo de capitais, e pegou uma carona especial na ascensão daChina. E porque tinha pouco crédito bancário, aqui não uma virtude, mas uma carência que acabou ajudando.

O que precisamos hoje? Combater a inflação para preservar a estabilidade. O resto é conversa importada e que justifica políticas oportunistas. Ou alguém acredita que entregar estatais ao PMDB e pelegos sindicalistasé o novo keynesianismo?

Fonte: O Globo, 07/04/2011

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