Milhares de empresas que seriam viáveis após uma reforma tributária estão agonizando

O grande negócio dos bancos no brasil durante os anos 1980 e 1990 eram os empréstimos ao governo. O mercado financeiro girava em torno dos títulos da dívida pública. E os aplicadores viviam dos juros astronômicos em depósitos de overnight, uma infernal ciranda de curtíssimo prazo. Os bancos eram simplesmente uma ponte entre governos perdulários e poupadores ariscos em meio ao caos inflacionário. O país se tornou o paraíso dos rentistas e o inferno dos empreendedores.

O desabamento da inflação na última década lançou o desafio de redirecionar as atividades bancárias. Uma redescoberta das funções verdadeiramente importantes do sistema financeiro na engrenagem econômica. O crédito é o lubrificante dessa engrenagem. As finanças teriam de transitar da especulação para a criação de riqueza lastreada na capacidade produtiva das empresas. Em vez da pilhagem parasitária de governos financeiramente irresponsáveis, os bancos deveriam operar uma rede efetiva de captação de recursos, avaliação de riscos, prospecção de retornos e seleção de investimentos para financiar o consumo de massa e o crescimento econômico.

A complexidade, a sofisticação e a vulnerabilidade desse extraordinário mecanismo financeiro foram exibidas nesta formidável crise global, cujo epicentro foram os mercados americanos de crédito imobiliário e seus derivativos, fabricados por excessos dos financistas e erros das autoridades monetárias.

As novas fronteiras dos bancos brasileiros são os mercados privados de crédito e de capitais. O financiamento do consumo de massa, com um público potencial de quase 200 milhões de brasileiros. O crédito consignado. Os planos de seguro e os programas de previdência. Os cartões de crédito. O capital de giro e a expansão das empresas emergentes. As fusões e aquisições, em busca de fatias de mercado nos processos de consolidação setorial. A abertura do capital das empresas, com as ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) de ações nas Bolsas. Os instrumentos de proteção contra riscos financeiros para empresas do setor real. E, o mais importante, o desempenho eficiente de sua função de transformar poupança em investimentos, aumentando a taxa de crescimento, ampliando a capacidade produtiva e criando empregos.

À medida que penetram em território inexplorado, os financistas se chocam com as brutais assimetrias da realidade empresarial brasileira. No topo, companhias de classe mundial que se aperfeiçoaram, evoluindo em ambiente hostil: hiperinflação, juros altos, impostos abusivos, encargos previdenciários e trabalhistas excessivos. São os campeões setoriais: por consolidação, como no setor bancário; por capacidade financeira e virtual monopólio, como em petróleo e mineração; por aquisição dos principais concorrentes, como em bebidas e alimentos; por empreendedorismo e modelos de negócio, como em aluguéis de automóveis e cosméticos. Essas companhias podem competir com qualquer concorrente estrangeiro pela preferência do consumidor no Brasil. Com seus atuais modelos de negócio, poderiam competir em qualquer lugar do mundo.

No mundo subterrâneo, estão milhões de pequenos empreendimentos, uma gigantesca rede de cooperação descentralizada, construída inteiramente na informalidade. É a maior máquina de geração de empregos do país, responsável pela sobrevivência econômica da esmagadora maioria da população brasileira. Esse universo de vitalidade empresarial permanece à margem dos mercados formais, exatamente pela inviabilidade de sua existência diante dos elevados impostos, do cipoal burocrático e dos excessivos encargos previdenciários e trabalhistas.

Entre os dois extremos, está o Brasil empresarial emergente. Aqui prosperam centenas de magníficos exemplares, mas agonizam milhares de empreendimentos que seriam perfeitamente viáveis após uma reforma tributária. A taxa de mortalidade dos que ousam formalizar suas empresas é absurdamente elevada. É preciso interromper essa chacina. Já é hora de rever os impostos.

(Época – 20/07/2009)

Deixe um comentário

1 comment

  1. Marco Túlio Kalil Ferreyro

    Caro colega economista Paulo Guedes,
    Parabéns pelo bom senso e lucidez analítica. No entanto, no tocante a sua proposição final, “… Já é hora de rever os impostos”, creio que inicialmente, devemos batalhar com unhas e dentes por uma reforma FISCAL completa, tanto pelo lado da despesa pública de forma a enxugar a máquina (que já está prá lá de paquidérmica, autofágica, perdulária e ineficiente) – além de qualificar o gasto público -, quanto pelo lado da receita, através de uma reforma tributária e trabalhista (concomitantes) que simplifiquem o atual sistema, uma verdadeira tapera fiscal e ao mesmo tempo, permita reduzir a atual carga tributária de forma a aumentar a renda pessoal disponível e a capacidade de investimentos das empresas. Acho que é por aí…Outrossim, aproveito o ensejo para convidá-lo a participar do Grupo “Pensar Econômico”, formado por defensores da ordem liberal. Tal grupo conta hoje com a participação do econ. Igor Morais -economista-chefe da FIERGS; econ. Paulo de Tarso Pinheiro Machado – diretor técnico da Agência de Desenvolvimento Pólo-RS; econ. Paulo Rabello de Castro – SR Rating e econ. Marco Túlio Kalil Ferreyro – MTKF Consultoria Econômica e assessor econômico do SINDUSCON-RS.
    Caro Paulo Guedes, será uma honra contar com a sua prestimosa presença em nosso think thank. Junte-se á nós! Afinal, o liberalismo é o único sistema que procura conciliar dois sentimentos humanos eternamente conflitantes: o de ser livre e o de viver em sociedade.
    Forte abraço,
    Marco Túlio
    tuliokalil@pop.com.br