Então, ficamos assim: a economia brasileira cresceu mais do que se imaginava no segundo trimestre e deve estar acelerando neste segundo semestre, de modo a terminar o ano em ritmo forte. A inflação, que andou alta no início do ano, zerou nos últimos meses, mas parece que já está voltando, e provavelmente rodará acima do centro da meta pelos próximos meses, aí incluídos os de 2011.

Lá fora, a economia norte-americana, que parecia em sustentada recuperação, deu vários sinais de que era bem essa moleza. Mas, depois de uma sequência de notícias negativas, até dando a impressão de que os Estados Unidos estavam perto de recair na recessão, os indicadores deram uma melhorada. Nada brilhante, mas ficamos assim: está mais para recuperação do que para recaída.

Acrescente aí que a China, que havia desacelerado no segundo trimestre, esquentou os motores de novo. A Europa, puxada pela Alemanha, deixa para trás a parte aguda da crise das contas públicas e esboça algum crescimento. O Japão, acreditem, vai crescer mais do que o esperado. Não é grande coisa, pois não se esperava muito, mas é melhor do que antes.

E os países emergentes seguem acelerando.

Tudo somado e subtraído, a questão é: o Banco Central (BC) brasileiro fez a coisa certa ao interromper o ciclo de alta de juros, deixando a taxa básica em 10,75% ao ano?

A resposta não é simples. A maioria dos analistas acredita que sim ou, mais exatamente, entende que o BC tem argumentos para fazer o que fez.

Mas, entre esses mesmos analistas, muitos – a maioria – entendem que o BC terá de voltar a elevar os juros no ano que vem, pois, sob novas pressões, a inflação rodará acima do centro da meta (4,5%). Ora, se isso já está no cenário, por que não elevar a taxa básica desde já e garantir uma convergência para os 4,5% o quanto antes?

É o argumento de muitos economistas, para os quais o Banco Central deveria ter promovido mais uma alta de juros na última reunião, na semana passada.

Mas há ainda uma outra corrente, para a qual a economia brasileira passa por mudanças estruturais, de tal forma que pode crescer mais do que no passado, com taxas de juros menores e, claro, inflação na meta. Isso, entretanto, é uma suposição.

Tudo considerado, parece que o Banco Central correu um risco forte. Parou de subir juros com base em hipóteses arriscadas, quando, normalmente, o BC tendia a ser mais conservador e precavido. O jogo teria sido este: se as hipóteses não se confirmarem, a inflação escapa só um pouco da meta, e sempre haverá tempo, em 2011, para corrigir as coisas.

É claro, caro leitor, cara leitora, que não é necessário dizer qual a diferença entre 2010 e 2011.

“Pagamos mais caro. E agora?” Seguimos com a série iniciada no artigo de 23/8/2010, que mostra o quanto os brasileiros pagam mais caro pelos produtos globais e que procura saber por que isso ocorre.

Há muitas colaborações de leitores e leitoras.

A jornalista Daniela Braun me manda este comparativo dos preços sugeridos pela Apple no lançamento recente de novos produtos:

iPod Touch: de 8GB (nos Estados Unidos, US$ 229; no Brasil, R$ 749 ou US$ 430). De 32GB (nos Estados Unidos, US$ 299; no Brasil, R$ 999). De 64GB (US$ 399 lá e, aqui, R$ 1.290);

iPod nano: de 8GB (nos Estados Unidos, US$ 149; no Brasil, R$ 549). De 16GB (US$ 179 lá; aqui, R$ 649).

iPod Shuffle, o “chaveirinho”: US$ 49, nos Estados Unidos; no Brasil, R$ 229.

Fazendo o câmbio a US$ 1/R$ 1,75, o preço equivalente no Brasil é, na média, o dobro do norte-americano.

Certamente, o real está valorizado, mas isso não explica tudo. Para que os preços brasileiros, convertidos em dólar, ficassem iguais aos dos Estados Unidos, a moeda americana deveria estar cotada a algo entre R$ 3,20 e R$ 3,60. E nem os mais radicais defensores da desvalorizaçãodo real sugerem uma cotação desse tipo.

Ou seja, tem muito custo Brasil além do câmbio.

O leitor Mauricio Correa escreve: “Há uma nova forma de comercialização implementada pela Apple/Brasil em sua vitrine online (Apple Store). Anuncia os produtos destacando quanto há de impostos no valor cobrado. Exemplo de uma oferta do Site: um iPod nano de 8GB, lançado esta semana, é cotado por R$ 549, destacando que esse preço está incluindo R$ 197 de impostos e taxas. Bem que essa prática poderia chegar a todas as tabelas de preços. Para ficar perfeito, a Apple/Brasil, que oferta esse produto com a possibilidade de pagamento em 12 vezes, sem juros (?), no cartão de crédito, poderia destacar também o custo financeiro desse parcelamento.”

Um excelente ponto. Tudo é mais caro por aqui, inclusive os juros. Estes pressionam o custo Brasil, mas, ao mesmo tempo, são efeito dele.

O leitor Fernando F. Vilibor mostra o problema e como o tem superado. Escreve: “Comprei uma peça para a minha bicicleta num site nos Estados Unidos, pelo preço equivalente a R$ 360 lá. A mesma peça aqui, no Brasil, custa R$ 1.100. E, pagando todos osimpostos de importação (60%, mais ICMS de 18%, por dentro, e frete), o custo final ficou em R$ 765,44. Assim: preço free on board (FOB), R$ 360; mais Imposto de Importação (60%), R$ 216; mais base para ICMS, R$ 576; mais ICMS (18%), R$ 702,44; mais frete de R$ 63 totalizam R$ 765,44, o custo nos Estados Unidos. Como no Brasil a mesma peça sai por R$ 1.100, trata-se de uma variação de custo de 43,71%. E quer saber mais? Comprei numa segunda-feira à tarde e na quinta-feira pela manhã estavam entregando a peça na minha casa. E depois reclamam que os brasileiros vão ao exterior e compram tudo o que podem e não podem.”

Fonte: Jornal “O Estado de S.Paulo” – 6/09/10

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