Eclipse na economia internacional

Marcos Troyjo

Conceber e aprimorar tecnologicamente produtos e processos – e levá-los aos mercados globais – é o grande diferencial de poder e riqueza nas sociedades contemporâneas. Choques de destruição criativa, nos dizeres de Joseph Schumpeter, fazem países ocupar o centro da geometria econômica global.

Segundo a famosa hipótese Singer-Prebisch e toda a escola estruturalista que lhe seguiu, deriva deste modelo um padrão Centro-Periferia ou Norte-Sul. No centro, ou Norte, países que realizam intensiva destruição criativa e agregação de valor. Na periferia, ou Sul, países dependentes da comercialização de matérias-primas.

Quando a liderança central era desempenhada pela Inglaterra no século XIX, elites latino-americanas, como a da Argentina, logravam manter elevados padrões de vida com a exportação de carne ou trigo. Era o mundo ricardiano das vantagens comparativas que permitia a Buenos Aires tantas livrarias como Paris e teatros equivalentes aos de Londres.

Com os EUA – também uma superpotência do comércio agrícola no papel de economia central -, emergiu o desafio da industrialização por adaptação criativa. Diferenciais teriam de residir em vantagens competitivas.

A China tem combatido sua condição periférica desde 1978 com industrialização voltada a exportações. O Brasil, com a substituição de importações. A primeira visa acordos comerciais, PPPs voltadas à estruturação de comércio exterior e baixa remuneração dos fatores. A segunda, protecionismo, alento ao mercado interno e incentivo em compras governamentais ao conteúdo local.

O êxito ou fracasso desses modelos estará associado a uma correta compreensão – e necessária adaptação – das estratégias nacionais a um verdadeiro eclipse no centro da economia global.

Isso porque a China tornou-se um outro centro. Seu modelo industrial de Nação-Comerciante é tão eficiente e portentoso em escala, que sua arrancada gerou uma retomada da demanda planetária por commodities. O PIB chinês em dólares correntes foi multiplicado 83 vezes desde 1978. Chegará a US$5 trilhões em 2012.

Por um lado, a China acelerou sua adaptação criativa e, mediante exuberantes superávits comerciais e sucessivos excedentes orientados estrategicamente à pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D+I), está aproximando-se do centro denso em tecnologias. Em 2020, chegará à marca de 2,5% de seu PIB voltados à P&D+I, superior portanto à media de 2,1% dos países da OCDE. O Brasil continua no patamar de apenas 1% de seu PIB em P&D+I.

Por outro, este renovado sistema internacional em que há uma centralidade da China faz reemergir, para países como o Brasil, lógica semelhante ao padrão Norte-Sul das vantagens comparativas do século XIX. Isso se ilustra por fatos como o da tonelada chinesa exportada ao Brasil a US$ 3 mil, enquanto a tonelada brasileira à China vale menos de US$ 170.

Esta neodependência a um novo centro é temerária para o Brasil. Pode levar a uma sensação de efêmera prosperidade, sobretudo se os benéficos do comércio em commodities não se traduzirem em investimentos nas áreas de ponta deste cenário global de acirradas rivalidades tecnológicas.

Fonte: Brasil Econômico, 30/08/2011

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