Economia 4.0 ganharia com ‘Plano Marshall tecnológico’

A ideia de “plano econômico” dominou o imaginário dos economistas no século 20. Seu conceito, na contramão do que pregavam os liberais clássicos, representava intervenção clara do governo no curso espontâneo dos mercados.

Daí um plano ser (teoricamente) sempre a tentativa de acelerar um processo ou corrigir um rumo equivocado. É um “atalho” para determinado objetivo. A opção por “planos” marca a conhecida divisão entre pensamento ortodoxo e heterodoxo em política econômica, mas isso não precisa ser necessariamente assim.

Nos últimos 70 anos, uma das mais exitosas estratégias dessa natureza, aplicada logo após a Segunda Guerra, foi o Plano Marshall. Transformou países derrotados no grande conflito em economias competitivas e prósperas.

Hoje, o fenômeno com maior potencial de estabelecer pontes cooperativas internacionais ou, ao contrário, alargar ainda mais o fosso de desenvolvimento entre os países, é a chamada “Economia 4.0”. Talvez este termo, mais ainda do que a designação “Quarta Revolução Industrial”, seja mais apropriado para descrever o ecossistema de conhecimento, tecnologia e empreendedorismo em que estamos ingressando.

Se, como sugere Klaus Schwab, não mais o capital, mas o talento é o fator determinante do êxito nesta “Nova Era de Adaptação”, é fundamental falar da necessidade de um “Plano Marshall tecnológico”.

A grande distância mundial não é mais entre os que têm e os que não têm, mas entre “conectados” e “não conectados”. A fusão talento-tecnologia permite a países “adaptações seriais”. E, a partir de tal dinâmica, o imperativo é gerar atividade produtiva que vá além das tradicionais vantagens comparativas ricardianas.

Uma nova onda de cooperação internacional para o florescimento da Economia 4.0, tarefa que se deveria acrescer às “Metas do Milênio”, vale salientar, estaria repleta de desafios. Por exemplo: quais são as implicações do termo “infraestrutura”para a Economia 4.0? Qual o sentido contemporâneo de um novo Plano Marshall que viesse a fornecer infraestrutura de tecnologias da informação para o mundo em desenvolvimento?

Infraestrutura convencional na economia industrial foi classicamente representada pela malha logística –por portos, aeroportos, ferrovias, estradas etc. Agora, infraestrutura compreende modalidades velozes e seguras de conectividade. Igualmente, consiste na relação ágil entre universidades, unidades de pesquisa e desenvolvimento e sua tradução em produtos para o mercado.

Nesse contexto, repensar políticas de desenvolvimento torna-se ainda mais complexo. A velocidade com que aeroportos ou estradas se tornam obsoletos é dramaticamente inferior à rapidez com que o fio de cobre foi superado pela fibra ótica. Ou esta pela progressiva utilização de tecnologias de satélites.

Um bom exemplo dessa “obsolescência prematura” que crescentemente marcará a Economia 4.0 foi o programa “One Laptop per Child”, criado por Nicholas Negroponte, fundador do Media Lab do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussetts). A ênfase nos laptops foi determinantemente superada pela ascensão de tablets e smartphones.

Eis um grande dilema para um Plano Marshall contemporâneo. Ademais de exigir um nível de cooperação internacional numa conjuntura global em que as principais potências encontram-se particularmente “individualistas”, corre-se o risco de apostar em determinadas tecnologias incapazes de encurtar a distância entre economias baseadas no conhecimento e aquelas às voltas ainda com a primeira revolução industrial.

Certa feita, Akio Morita, o legendário fundador da Sony, explicou o êxito do Japão como resultado de “trabalho duro e águas profundas”. Aludia à infraestrutura de portos, que favorecia as exportações japonesas. É claro que o mundo carece de um “Plano Marshall” tecnológico, mesmo tendo que lidar com o ritmo –e o risco– exponencial da inovação. Não há saída. Na Economia 4.0, o desempenho será produto de “trabalho duro e conhecimento profundo”.

Deveríamos entender por “Plano Marshall tecnológico” não um programa específico, concebido, decidido e implementado a partir de uma decisão da Assembleia-Geral da ONU. Caberia, sim, um renovado chamamento à cooperação internacional a mostrar que o “gap” digital fará com que, no limite, todos os países sairão perdendo.

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