Educação para o século XXI

Como construir uma sociedade sustentável voltada para o século XXI? Essa é uma questão crítica, pois estamos falando não apenas de jovens cuja boa formação profissional facilite o seu ingresso no mundo do trabalho, mas que tenham desenvolvido habilidades pessoais e sociais para uma vida plena, possibilitando a estruturação de uma sociedade ética e com justiça social.

Isso requer necessariamente a oferta de uma escola com educação integral e ao longo da vida. Quando falamos em educação integral, não estamos falando em escola em tempo integral — o que também é desejável —, mas numa escola capaz de desenvolver os quatro pilares da educação voltada para o século XXI: aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a conhecer. Para colocá-los em prática na sala de aula, é absolutamente imprescindível desenvolver as chamadas habilidades socioemocionais – ou habilidades para a vida –, tais como pensamento crítico, criatividade, colaboração, comunicação e abertura para o novo, entre outras.

Isso não significa, como alguns pensam, criar uma nova disciplina na escola, mas sim trabalhar as disciplinas, na sala de aula, de forma absolutamente diferente. Infelizmente, a nossa sala de aula ainda se parece muito com a do século XIX, com alunos enfileirados e um professor dizendo coisas que em grande parte já estão nas redes e nas plataformas digitais. Para trazer essa escola do século XIX para o século XXI, precisamos não apenas tornar mais flexível a arquitetura da sala de aula, mas proporcionar formação sólida aos professores, para que trabalhem em um novo espaço capaz de permitir o desenvolvimento de diferentes abordagens de aprendizagem. Uma escola com internet e banda larga, por exemplo, pode naturalmente permitir um trabalho de pesquisa, envolvendo diferentes grupos de alunos, sobre um determinado tema, potencializando assim o trabalho colaborativo, a criatividade e o pensamento crítico. Portanto, internet e banda larga não são luxo, mas um pré-requisito básico para trazer a escola ao século XXI.

O uso de games é outro caminho que pode não só desenvolver tais habilidades, mas permitir que o tempo de aprendizagem e de desenvolvimento de cada aluno seja respeitado. Muitas experiências mostram que quando a matriz das habilidades promovidas pelos games está alinhada com a matriz de habilidades esperadas para o aluno naquela faixa de desenvolvimento escolar, ocorrem importantes avanços de aprendizagem.

Em outras palavras, as estratégias capazes de promover tais habilidades de forma intencional no currículo escolar são importantes promotoras da aprendizagem escolar. Portanto, as habilidades cognitivas e socioemocionais não competem entre si, como alguns pensam, mas se articulam de forma colaborativa no desenvolvimento não só escolar, mas pessoal e social do aluno.

De fato, estudos realizados pelo Prêmio Nobel de Economia em 2000, prof. James Heckman, da Universidade de Chicago, mostram os inúmeros impactos positivos na vida das pessoas, quando, ainda na primeira infância, tiveram a oportunidade de trabalhar as suas habilidades socioemocionais. Por exemplo, as crianças cujas habilidades socioemocionais foram trabalhadas nessa fase da vida escolar têm 44% mais chances de concluir o Ensino Médio, e 35% menos chances de ter problemas prisionais.

O próprio Instituto Ayrton Senna, em parceria com a Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, desenvolveu uma metodologia de educação integral, em tempo integral, que promove não só importantes avanços de aprendizagem escolar, mas também – e principalmente – o desenvolvimento de jovens autônomos e conscientes da importância do seu papel na construção de uma sociedade sustentável.

Por isso, recebi com muita alegria o fato de a terceira versão da Base Nacional Comum Curricular já explicitar claramente a importância das habilidades socioemocionais na formação de professores e alunos aptos para os desafios do século XXI. Numa recente conversa com profissionais vinculados à área de gestão de pessoas nas empresas, ouvi a seguinte frase: “Hoje contratamos pelo cognitivo e demitimos pelo socioemocional”.

O mundo mudou, e muito. É preciso que a escola compreenda isso. É papel nosso, enquanto educadores, não só contribuir para que todos os alunos tenham assegurado o seu direito constitucional à aprendizagem, no sentido mais amplo, como prover aos nossos professores o direito ao contínuo aperfeiçoamento da sua formação, para que assim tenhamos uma escola integrada aos novos desafios do século XXI – em que não só as competências ligadas ao mundo do trabalho são trabalhadas, mas também aquelas que promovem o pleno desenvolvimento do ser humano.

Fonte: “Correio Braziliense”, 9 de fevereiro de 2017.

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