Educação e emprego — há uma receita para o sucesso profissional?

Estudos recentes vêm comprovando o fracasso do Pronatec — um bilionário programa de formação profissional que tinha tudo para dar errado. E deu. Isso sugere importantes reflexões.

Educação gera emprego? Treinamento ajuda a conseguir emprego? Como os indivíduos podem aumentar sua empregabilidade? Como as políticas públicas podem contribuir para melhorar a qualidade e as oportunidades de emprego?

Educação e formação profissional não geram emprego: quem gera emprego é a economia. Historicamente, dados os empregos oferecidos, educação e formação profissional determinam as chances de obter emprego, a qualidade desses empregos e, frequentemente, os salários e chances de melhoria.

As mudanças no mundo do trabalho decorrentes do avanço tecnológico e das tecnologias de informação e produção estão afetando essa equação. A tendência a universalizar o ensino médio também reduz as diferenças na qualificação formal entre os indivíduos — e é possível que outras variáveis, além da educação, passem a ter maior peso.

Como essas informações podem ajudar as pessoas e governos a tomar decisões que poderão afetar suas vidas?

As evidências disponíveis não sugerem receitas, mas oferecem boa matéria para reflexão. Para os governos e mercados, trata-se de oferecer oportunidades e aumentar a transparência das informações. Para os indivíduos, trata-se de fazer uma aposta bem fundamentada com base no autoconhecimento e nessas informações e oportunidades. Eis o que dizem as evidências no caso brasileiro.

Se completa o ensino fundamental e não completa o secundário, uma pessoa tem menos chance no mercado do que quem ficou apenas no nível fundamental. Isso sugere que o mercado penaliza quem faz apostas erradas.

Se completa o ensino médio, ela ganha mais do que quem completa o fundamental — ao longo da vida, esta diferença é significativa. Mas isso precisa ser melhor entendido.

Se a pessoa vai ficar apenas com o nível médio, possivelmente ela teria melhores chances profissionais se fizesse um curso médio técnico de boa qualidade. Nas economias desenvolvidas, este é o caminho trilhado por cerca de metade dos jovens — varia de 30 a 70%, conforme o país.

Diferentemente do ensino médio, o mercado privilegia quem faz qualquer curso superior — mesmo que não o complete. Para quem completa um curso superior, a diferença média é de 180% a mais de salário — sendo que para algumas ocupações é muito maior.

Para quem chega ao final do ensino médio com uma boa formação, há duas vias promissoras. Uma delas são as carreiras ultra-especializadas, como as de médico ou de pesquisador. Essas careiras exigem uma forte e longa especialização — pois o indivíduo precisa de muito conhecimento e prática para alcançar níveis elevados de proficiência.

A outra via, para a maioria das pessoas, parece ser a de fazer um curso superior que seja não apenas desafiante, mas que, além disso, dê uma base que permita ao indivíduo aventurar-se em outras áreas ao longo da vida.

Ou seja, nos três casos — ensino médio técnico, formação ultra-especializada e formação geral de alto nível —, o segredo está numa formação que assegure ao indivíduo capacidade de continuar a aprender ao longo da vida para se adaptar às mudanças que certamente virão.

O setor produtivo não espera que pessoas e governos estejam preparados para os desafios: ele opera pragmaticamente dentro de suas restrições. Se uma sociedade não tem pessoas bem educadas e bem formadas para o mundo do trabalho, as empresas adotam tecnologias de produção para usar o que está disponível — o que compromete a produtividade de um país. É o que se chama de nivelar por baixo. E isso cria uma falsa ilusão para os que conseguiram avançar um pouco mais — em terra de cego…

Para competir com as economias avançadas no século XXI, não existem atalhos – como os do Pronatec, seus antecessores e possíveis sucessores. Conspiram contra seu sucesso o corporativismo dos provedores de treinamento e o imediatismo político que busca apenas estatísticas grandiosas. Por outro lado, existe informação suficiente para que as políticas públicas de emprego e de formação profissional sejam elaboradas de maneira mais competente, consequente e responsável.

Fonte: “Veja”, 02/10/2017.

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