Egopolítica

Algum psicanalista voluntário para diagnosticar o mal de nosso personalismo político? Não defendemos ideias e programas, mas quem representa melhor uma vaga ideia e programas que queremos. Assim é para a corrida da Presidência que já começa cedo, prenhe de fulanizações, até a escolha do novo ministro do Supremo que, na atual conjuntura, já tarda, tamanha a insegurança a que somos subjugados pela fragilidade de nossas instituições.

Pois parece que não sabemos que instituições servem exatamente para que a cidadania não fique à mercê de milagreiros, protagonistas voluntaristas ou heróis salvadores da pátria. Até mesmo nosso atual herói, que diz que não quer ser herói, acaba de declarar que a Operação Lava-Jato não existiria sem o ministro Teori Zavascki. Ele então, nosso paladino Moro, também não confia na instituição da Justiça Federal?

Volto a dizer: a política não pode depender do protagonismo de alguns, se não da atuação dos milhões de cidadãos que a encarnam anonimamente e das instituições de que se utilizam para atuar: o Parlamento, a Justiça, o Ministério Público, a polícia, o Tribunal de Contas, a Controladoria-Geral, a Presidência, as Forças Armadas, a Chancelaria, o Banco Central, algumas poucas agências reguladoras e alguns poucos conselhos federais como de Educação, Saúde e Previdência Social. E já vai grande o tamanho do Estado. O resto, tudo o mais que puder ser delegado à iniciativa privada, que não puder ser descrito como instituição pública, tampouco federal, como centenas de empresas e autarquias que só pesam no orçamento público e pouco ou nenhum resultado objetivo trazem para os cidadãos, que seja simplesmente alienado, exatamente para não tirar o foco do fortalecimento das instituições públicas imprescindíveis para o serviço aos cidadãos pagadores de impostos, eleitores e única fonte soberana do poder público.

Voltando às instituições como as listadas acima, que diferença faz para uma Polícia Federal ter o bom desempenho que já demonstrou ter desde o mensalão, o protagonismo deste ou daquele delegado ou perito investigador federal? E o Ministério Público Federal, não colheria os resultados que colheu a despeito deste ou daquele procurador mais ou menos proativo? Ou a Receita Federal, qual dos auditores fiscais foi mais ou menos eficiente nas bem-sucedidas investigações havidas?

Prova de que são instituições mais sólidas que importa, e não a fogueira das vaidades dos mandatários eleitos das casas legislativas ou dos executivos federal e estaduais. Já foi um grande ganho para os cidadãos brasileiros saber escalar os nomes dos 11 ministros da Suprema Corte, mas a perda de um deles não pode nem de longe comprometer o desempenho impessoal, público e probo da instituição. Como nas Forças Armadas, no Tribunal de Contas, na Chancelaria, nos conselhos e agências reguladoras, não importa os nomes de seus comandantes, senão o desempenho do corpo de seus membros.

Fonte: O Globo, 02/01/2017.

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