Supôs-se naquele tempo um desgraçado, um caipora, quando a verdade era que “mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga”. Tanto não era impossível enriquecer, que estava rico. – (Machado de Assis)

Que o título um tanto filosófico não assuste o leitor. Quem transforma livros fechados em sabedorias abertas sabe que filosofia não significa obscuridade. Não sejamos vítimas das palavras estranhas, essas que os medalhões gravebundos adoram soltar. Alteridade simplesmente fala do que é próprio do outro, daquilo que é diferente e, assim, contrasta com o que somos e, supomos, conhecemos e controlamos.

No momento em que vivemos um já ultrapassado, senão esquecido, processo eleitoral que criou, promoveu e levou ao limite essa alteridade, tornando antipáticos (senão inimigos imorais) amigos íntimos (e até mesmo alguns – quem diria? – parentes) e camaradas; ou, ao contrário, inventando novos aliados que foram alvos de nossas acusações e tendo sido necessários ao nosso trajeto eleitoral, por certo souberam compreender que nós os havíamos acusado apenas em nome da “política” e não da moralidade que governa um trivial cotidiano. Num caso, quanto no outro, surge essa estranheza típica da alteridade que promove acusações ou desperta atrações irresistíveis nos candidatos que disputaram um cargo público, mas – eis um dos paradoxos – evitavam competir por ele.

Antigamente, a coerência com a desigualdade como valor estabelecia quem podia pleitear algum cargo público. As restrições que graduavam grupos e pessoas resolviam a oposição entre a disputa (própria do campo relacional dos bem-nascidos); e a competição aberta que conduz a uma presença importuna das “outridades” no choque dos debates individuais que fazem perder o senso. Uma coisa é pleitear e disputar, pedindo – como Rubião – a ajuda de Deus; outra, muito diferente, é cedo madrugar – trabalhar ! -, essa maldição numa sociedade de nobres, numa campanha eleitoral que confronta e iguala, todos com todos, reduzindo a cota de hierarquia que deveria prevalecer entre os que “sabem ler e escrever”, algo que a universalização eleitoral e eleitoreira nivelou por baixo, quando permite que criminosos sejam candidatos, ao mesmo tempo em que estimula os candidatos a serem (ou não) criminosos. Pois uns estão cobertos pela capa da igualdade interpretada por um prisma formalista; ao passo que outros usam a imunidade política, um princípio básico da competição eleitoral moderna, como escudo a proteger o “eleito pelo povo” de todo e qualquer delito, transformando-o automaticamente naquilo que a própria democracia suprimiu: a desigualdade de alguns perante a lei que deve valer para todos.

A eleição, como um “rito de reversão” ou de “confirmação”, entretanto, transforma essa rede de relações, deixando ver o que jazia nela escondido: um conjunto de indivíduos livres e iguais. Fazendo surgir de dentro das suas malhas bem cerzidas esses seres individualizados – esses outros -, que deixam de ser nossos amigos de infância, trabalho ou círculo social para serem nossos algozes e eventuais inimigos. Numa sociedade marcada por rapapés e hierarquias, a competição pelo poder que – supomos – faz e desfaz trás à tona essa indesejável alteridade inventando esses “outros” que, no plano mais raso da política, são os que nos converteram em perdedores.

Dizem que o povo escolheu a diversidade e deu uma bela banana ao monopólio político-partidário. Concordo. A chama que Gabeira acendeu no Rio de Janeiro foi uma prova disso, e cabe mantê-la acessa. Pressinto, porém, um outro sinal. Refiro-me à idéia de que começamos a nos acostumar com essa alteridade que o mundo moderno instituiu quando, no plano utópico, libertou o indivíduo dos seus elos imperativos. Todo debate político é uma competição. É um território minado por divergências reais e não por discórdias entre milicianos de boas famílias e de partidos políticos salvacionistas e messiânicos. A experiência da esquerda no poder revela como o poder é muito maior do que as ideologias. Essa última disputa indica talvez uma transição. A eleição deixou de ser um rito salvacionista para ser um cerimonial cívico-administrativo. Não se trata mais de eleger quem vai nos salvar, mas de quem vai governar a cidade e não as nossas vidas! E governar prestando as contas dispensadas aos messias não é fácil. Todos temos as listas das promessas feitas e estamos esperando a tal posse do cargo para cobrar veementemente os projetos de campanha porque eles são o aval da honra do candidato, agora dirigente.

Ao vencedor cabe um trabalho duro. Acabou – eis, queira Deus, a grande convergência – a aristocratização pelos cargos públicos. Ao vencedor, as batatas! Batatas quentes…

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