Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

As eleições argentinas e o Brasil

Todos os brasileiros deveriam interessar-se pelas eleições presidenciais argentinas que se realizam neste próximo domingo (25).

A Argentina é nosso terceiro maior parceiro comercial (atrás de China e EUA). Para os argentinos, comercialmente somos o número um.

É da Argentina que vem o maior volume de turistas estrangeiros para o Brasil –e a Argentina é o segundo destino internacional dos brasileiros. E turismo, no limite, nada mais é do que exportação de serviços.

As empresas brasileiras estão perdendo mercados tradicionais

Somos os maiores países da América do Sul. E é muito difícil imaginar um item da agenda internacional –na ONU, OMC, no campo do combate às drogas, etc.– em que não tenhamos de coordenar posições.

Nesse contexto, a vitória de qual candidato mais benefícios traria ao incremento das relações Brasil-Argentina?

Daniel Scioli, governador da província de Buenos Aires (que com seus 17 milhões de pessoas tem população maior que grande parte dos países europeus), é apoiado por Cristina Kirchner e, há um tempo, ocupou a Vice-Presidência argentina durante mandato do falecido marido da atual presidente, Néstor Kirchner.

Mauricio Macri, prefeito da cidade de Buenos Aires, apresenta um discurso mais liberalizante e inovador, postulando uma Argentina mais interconectada com o século 21. Identifica nas reformas estruturais as bases para a reconstrução da Argentina como país moderno.

Sergio Massa, com menores chances eleitorais, mas com importante peso relativo na definição da disputa Scioli-Macri, já foi chefe de gabinete de Cristina e pertence ao campo do peronismo, embora hoje se fortaleça com o apoio daqueles desiludidos com os anos Kirchner.

Os impactos dessa eleição nas relações com o Brasil e Mercosul são potencialmente profundos.

Dependendo da vontade das urnas, o “mantra” negociador argentino pode mudar. Durante o período Néstor-Cristina, a Argentina sempre advogou posições mais protecionistas e alinhadas com a ideia de que caberia ao Mercosul primeiro consolidar-se como plataforma política antes de ambicionar voos mais altos em termos econômicos.

Isso valeu, por um lado, para efeitos sobre o comércio intrabloco. É muito mais barato comprar um garrafa de um bom vinho argentino em Nova York do que num supermercado em São Paulo. Por outro, acabou colocando ainda mais obstáculos à abertura e integração com outros blocos econômicos, como a União Europeia, cuja negociação com o Mercosul já se arrasta por 15 anos.

Uma vitória de Scioli aparentemente traria mais inércia para a política argentina de integração comercial.

Se ele mantiver a linha kirchnerista, não haverá maiores avanços na cooperação do Mercosul com a Aliança do Pacífico ou mesmo na ampliação de setores sobre os quais não têm validade as chamadas “regras de exceção” no comércio envolvendo Brasil-Argentina.

Já Macri aponta para políticas mais pró-negócios, retomando diálogo com a comunidade financeira internacional e trabalhando fortemente para incrementar o volume de IEDs (investimentos diretos estrangeiros) para a Argentina.

Vale notar que essas eleições presidenciais argentinas dão-se num momento em que o Brasil se encontra particularmente fragilizado. E a sombra da crise brasileira projeta-se tenebrosa sobre a Argentina, sobretudo na forma de menos prestígio e espaço.

Com a desmoralização das vozes argentinas que defenderam nos últimos 20 anos a “brasildependência”, qualquer estratégia internacional argentina passa necessariamente por duas alternativas: o incremento das relações com Pequim ou normalização do fluxo com Wall Street.

A primeira significa oferecer aos chineses fatias ainda maiores da vida econômica argentina. Hoje setores como bancos, transportes e projetos de infraestrutura em geral já percebem pesada presença chinesa.

Tudo isso se dá sob o guarda-chuva de um abrangente programa de cooperação econômica, investimentos e financiamento acordado durante a visita que Cristina Kirchner fez a Pequim em março deste ano.

A segunda implica alguma forma de entendimento com os chamados “fundos abutres”, cuja vitória nas cortes de Nova York levou o governo argentino a uma moratória involuntária de sua dívida externa em julho do ano passado.

As empresas brasileiras estão perdendo mercados tradicionais de maior valor agregado em razão de uma maior presença de companhias chinesas.

No setor de petróleo e gás, dado o estado notoriamente esgarçado da Petrobras, a principal empresa brasileira do setor não tem músculos para desempenhar qualquer papel nas ricas reservas não convencionais de energia que a Argentina detém no sul do país.

Assim, as eleições do próximo domingo se dão no contexto histórico em que o Brasil é comparativamente menos importante para a Argentina desde que os dois países regressaram à democracia, nos anos 1980.

Relações mais densas entre as principais potências do Cone Sul dependem menos do pleito presidencial argentino e mais de o Brasil colocar ordem em sua própria casa e daí voltar a projetar influência.

Fonte: Folha de S.Paulo, 21/10/2015.

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