Tem sido cansativo, leitor. Todos nós, economistas, trabalhamos em nossos empregos e empresas ao longo do turno normal. Estudamos as coisas da teoria, pesquisamos dados, rodamos modelos em uma parte do tempo. Na outra atendemos os inúmeros chamados, convites, mensagens, palpites, o “vê se eu tenho razão”, sem nenhuma intenção, mas cheio de segundas intenções. A eleição deste ano, afinal, tornou-se puramente econômica e isso, por si só, já deveria ser um indício que as coisas não vão bem.

Os economistas foram ignorados em 2006 e em 2010. Tudo ia bem ou parecia bem. A economia crescia, a inflação não era um problema, nem o desemprego. Temor? Apenas o de voltar aos tempos sombrios da década de 90. Coisa que ninguém pensava a sério. PSDB? Nem pensar, dizia a maioria. Todos, sem ou com razão, lembravam com pesar o período tucano no poder. Hoje? Eles vêm aos economistas perguntar: e ai, foi tão ruim assim mesmo?

Os economistas, ao menos os sérios, contam a História. Ela não começa na década de 90, a bem dizer. É muito anterior. Começa na crise de 29, quando o Brasil resolveu abandonar o modelo agroexportador e decidiu se aventurar pelos caminhos da indústria. Não sem debate ou embate. Roberto Simonsen e Eugênio Gudin preconizaram a célebre discussão entre o desenvolvimentismo e o liberalismo, no modo de conduzir a economia brasileira. Aquele queria investimentos maciços na indústria, este que se seguisse a vocação agropecuária do Brasil. Houve vencedores, o leitor sabe disso.

O modelo de substituição de importações foi levado às últimas consequências. Substituiu-se bens de consumo, depois bens intermediários e, por fim, no apagar das luzes, bens de capital. Uma indústria diversificada, pronta, acabada, cheia de virtudes, dirão os defensores. E os críticos, o que dirão?

Estes, a bem da verdade, dirão que o modelo desenvolvimentista não teceu uma linha sobre educação. Nas décadas de 50 e 60 o Brasil investia setenta vezes mais, em termos per capita, em educação superior do que em educação básica. Nessa mesma época, 50% dos adultos acima de 15 anos eram analfabetos. Não funcionais: analfabetos mesmo, que não sabiam rabiscar o nome! Terrível, eu sei.

Ademais, por ser substituição de importação, nem uma palavra – nem uma vírgula, dirá – sobre a competição externa. A indústria, deitada em berço esplêndido, viu o Japão, a Coréia e a própria China, porque não, produzirem para exportação. Abertas à competição de todo o mundo, tiveram que correr atrás da inovação. O Japão, por exemplo, na década de 80, era tido como a nova América. Um século antes era um país agrícola, cheio de instituições que atravancavam o desenvolvimento. Veio a revolução Meiji e tudo se modificou. Para a frente Japão!

Espantados ficam os economistas sérios: o mundo cresce a 3% e os emergentes a 4%, nós a 0% e você quer culpar a crise?

Poupança? Ora, bolas, poupança para que, dirão os desenvolvimentistas. Herdeiros da tradição estruturalista-cepalina-keynesiana, eles disseram que tudo viria a seu tempo. Investir, crescer, consumir, o que dê, poupa, oras! E assim iria, não fossem as crises. Crises do imperialismo, diriam os mais à esquerda do debate. As crises do petróleo da década de 70 poriam fim ao modelo brasileiro: hora de cortar o chope e ir pagar a festa. Como?

A década de 80 inauguraria uma das maiores hiperinflações que se tem notícia no mundo. Afora a moratória do governo Sarney. A mesma hiperinflação que em outros lugares gestou o fascismo. A mesma hiperinflação que destrói a moeda e em seu bojo destrói qualquer possibilidade de planejamento de consumo ou investimento. Os números, afinal, não deveriam ser esquecidos: em dezembro de 1993, às vésperas do plano real, a inflação medida pelo IPCA, acumulada nos últimos doze meses, era de 2477,15%. Números superlativos que não deveriam ser ignorados a princípio e sim levados a uma reflexão.

Feito o prólogo, o economista sério iniciaria o argumento: foi muito ruim assim. Afinal, como você queria que fosse? Debelar uma hiperinflação exige correta aplicação da mais moderna teoria econômica disponível. Uma teoria que não ofereça mágicas ou construções indolores. Afinal, as piores doenças exigem os mais potentes remédios. E esses, em geral, atacam o agente invasor deixando para trás testemunhas inocentes. A recuperação da moeda, o objetivo final de todo o processo, exigiria paciência, compromisso e sacrifícios de todo um povo: o mesmo que tanto sofreu com as consequências da hiperinflação.

Em meio a tormentas, turbulências, relâmpagos e oposição ferrenha do PT, a hiperinflação foi debelada. E isso não é campanha: é fato, documentado por vídeos, jornais, revistas e livros. A década de 90 foi ocupada por invasores diversos e suas crises: México, Leste Asiático, Rússia, Estados Unidos e Argentina. Sempre com o propósito de desestabilizar uma sociedade que apenas voltava ao jogo: à economia de mercado. Uma sociedade que voltou apenas em 1995 a receber fluxos consistentes de investimentos externos, após longos e tortuosos anos de convívio com a maior das pragas, a inflação.

Vencido o mar de dificuldades, o Brasil, novamente, aplicou o mais moderno conjunto teórico para disciplinar a rebeldia: adotou em 1999 o regime de metas de inflação. Não só: também o câmbio flutuante e a responsabilidade fiscal, via superávits primários. Saneou o sistema financeiro, viciado na droga da hiperinflação e o deixou pronto para que realizasse seu ofício: intermediar poupadores e devedores. Estavam, ufa, dadas as condições para o crescimento com igualdade de oportunidades.

A primeira parte dos anos 2000 revisitou a belle époque, com o boom de commodities da China e os juros baixos dos Estados Unidos. Enredo delicioso que permitiu ao Brasil acumular cinco de seus doze superávits em conta corrente, desde 1947, pela série de balanço de pagamentos do Banco Central. Tudo fruto da visão do presidente Lula? Deixemos o leitor decidir essa parte da narrativa e sigamos em frente.

Tudo indo bem, Brasil decolando na “The Economist”, até que cai o Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008. O navio indo na direção correta espatifa no iceberg? Não, mil vezes não, grita o Palácio do Planalto! Hora de tirar aquele terno caro, tipo Armani, do armário: hora de usar a política anticíclica. E usamos, usamos, usamos e usamos novamente. Criança quando come melado…

Os incentivos de política econômica, a tal política anticíclica, funcionaram: em 2010, crescimento de 7,5%. Acima de qualquer medida potencial de crescimento. Mas funcionariam cada vez menos desde então. É como a droga para o viciado: funciona muito, funciona bem, funciona pouco, não funciona. Mas será que mesmo funcionando [muito] bem, está funcionando?

Não, não está. Afinal, melhor do que crescimento dopado é crescimento sustentável. Daqueles que se sustentam ao longo do tempo. Afinal, do que adianta crescer 7,5% em um ano e 0% no outro? Culpa da crise, dirá o governo.

Espantados ficam os economistas sérios: o mundo cresce a 3% e os emergentes a 4%, nós a 0% e você quer culpar a crise? Adicione-se a isso o fato de que o nosso país é extremamente fechado e você quer mesmo culpar a crise? Tem mais: o investimento direto continua fluindo e você quer culpar a crise? Ah, esses economistas sérios que têm resposta para tudo: caras mais chatos!

Explica-se, assim, a década de 90 como um processo de recuperação da moeda em meio às turbulências do mar externo. Não se explica o atual momento pela grama alheia e mais pela nossa própria grama. Hora de mudar? Não sei: economistas apenas opinam, eleitores, esses sim, votam…

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