A Eletrobras e os rios não são “estratégicos”

Estratégicos são, entre outros, educação, segurança, serviços públicos, boa gestão macroeconômica e defesa dos contratos e direitos de propriedade

O anúncio da decisão de privatizar a Petrobras despertou velhos preconceitos e visões distorcidas sobre o que é estratégico. A principal reação contrária veio dos rincões ideológicos que apoiam a vasta presença de estatais no Brasil. Dilma Rousseff e líderes sindicais alegaram, entre outras tolices, perdas para os consumidores.

A oposição à medida foi secundada por visões antigas sobre o caráter estratégico de certas empresas estatais. O ex-ministro das Minas e Energia e senador Edison Lobão alegou que a empresa é estratégica. Um professor da UFRJ defendeu que os rios são estratégicos.

A reação de Dilma e sindicalistas reflete a visão de uma esquerda atrasada que não percebeu o esgotamento do ciclo das empresas estatais na nossa economia. No fundo, retrata um velado preconceito contra o setor privado, comum entre ex-comunistas e velhos socialistas que não completaram a conversão às vantagens da economia de mercado.

Quem enxerga valor estratégico na Eletrobras e nos rios para a geração de energia padece do mesmo pecado, embora de origem distinta. São pessoas prisioneiras de uma cultura estatal intervencionista que as impede de perceber as transformações por que passou o país, inclusive o surgimento de condições para a assunção, pelo setor privado interno e externo, do controle e operação de grandes operações.

Lembremos que a Telebras também era considerada “estratégica”. O PT promoveu comícios sob a liderança de Lula para protestar contra a privatização. A desestatização promoveu, todavia, o acesso de milhões a um serviço essencial que havia se tornado um privilégio dos que podiam pagar caro por uma linha telefônica ou esperar anos para adquiri-la.

Estratégico, na verdade, é o conjunto de ações que promovem o desenvolvimento e o bem-estar. São os casos, entre outros, da educação, da segurança, do provimento de serviços públicos de qualidade, da boa gestão macroeconômica e da defesa da santidade dos contratos e dos direitos de propriedade.

Sae rios fossem recursos estratégicos para gerar energia elétrica, teríamos que classificar como tais os ventos que movem as pás da energia eólica. O que dizer do sol? Em algum momento, a energia solar se transformará em principal fonte de energia elétrica. Como reservar o astro-rei para atividades sob controle estatal?

A privatização da Eletrobras deve ser cercada de cuidados para estabelecer o melhor modelo para a venda do controle estatal, incluindo regras de governança. O resto é ideologia do além e visões sem sentido sobre o que realmente conta para definir o caráter estratégico do que quer que seja.

Fonte: “Veja”

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