Nada como uma elite culpada. Normalmente fruto de um inconsciente complexo de culpa, muitos “intelectuais” herdeiros de grandes fortunas acabam destinando parte de sua herança para financiar movimentos contrários ao próprio dinheiro ou à propriedade privada. Em uma busca desesperada por aceitação popular, necessitando expiar este forte sentimento de culpa por ter tido tanta facilidade na vida, estes herdeiros muitas vezes atacam os alicerces daquilo que seus pais, que construíram o patrimônio familiar, representam. A vida sob a sombra do sucesso do pai fica insuportável. Desprezar o que o pai representa passa a ser uma saída covarde para esta insegurança. É preciso “matar” o pai simbolicamente para se ver livre!

Acredito que esta seja a melhor explicação para tantos casos de herdeiros bancando movimentos revolucionários, de contracultura, no melhor estilo “rebelde sem causa”. Quem trabalhou duro a vida inteira para construir um patrimônio de forma legítima, costuma dar bastante valor ao dinheiro, um subproduto de seu sucesso profissional, o resultado justo por ter criado riqueza sob a ótica dos consumidores, por ter gerado empregos e colaborado para um mundo mais próspero. Mas quem recebeu tudo de bandeja, se não contar com uma boa estrutura emocional, pode facilmente se tornar vítima deste sentimento de culpa. Neste caso, usar seus recursos para atacar a própria riqueza e comprar apoio popular poderá ser tentador demais.

Talvez isso possa nos ajudar a compreender tantos herdeiros de indústrias americanas financiando ONGs esquerdistas nos países menos desenvolvidos, estimulando o mito do “bom selvagem” por meio dos índios, colaborando até mesmo com invasores do MST em nome da “justiça social”. Ou então um filho de banqueiro que resolve fazer filmes enaltecendo guerrilheiros comunistas. Pode ser que este sentimento de culpa esteja por trás também das tendências culturais que colocam tudo que vem do “povo” num altar. A elite culpada passa então a defender o relativismo absoluto, julgando que tudo é arte e, portanto, igualmente válido.

Como exemplo, o funk, com suas letras rudes, que muitas vezes incitam a violência, passa a ser visto como “fashion” pela elite, porque vem dos guetos, das favelas. Qual a diferença, afinal, entre Mozart e Tati Quebra-Barraco? Apenas uma questão de gosto, e a elite culpada, com vergonha de escolher o austríaco, acaba optando pelo “gosto popular”. Até mesmo o uso correto da língua passa a ser visto como frescura “burguesa”. Um rabisco numa tela e um quadro de Van Gogh assumem o mesmo valor. O feio e o belo desaparecem, o que significa matar o belo e idolatrar o feio.

Claro que o extremo oposto, o elitismo esnobe, também é igualmente repulsivo. Nem tudo que vem da “elite” é melhor. Diga-se de passagem, as piores ideologias, como o marxismo e o fascismo, foram criações de elite, em nome do povo. Marx nunca fora proletário, jamais entrara numa fábrica, e resolveu ensinar aos proletários a “lógica” de sua classe. A elite produz muita porcaria também. Mas, novamente, o motivo para tanto pode ser justamente o complexo de culpa. O herdeiro Sartre, de seu conforto em Paris, resolveu pregar as maravilhas do comunismo de Mao na China. Existem inúmeros outros exemplos como este.

Não pretendo aqui, de forma alguma, esgotar as causas que podem levar alguém rico a defender o socialismo ou algo do tipo. O ser humano é mais complexo que isso. Mas acho, sim, que este sentimento de culpa incutido em alguns, aliado à covardia perante o julgamento das massas, faz com que muitos filhos “mimados” partam para ações que têm como meta inconsciente, expiar seus “pecados” de herdeiro. O que é uma lástima, tanto pelo efeito negativo que seu proselitismo espalha no mundo, como pela mancha no legado daquele que construiu o “império”.

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