“O Estado de São Paulo, 12/04/2006

Tem sido comum na retórica política brasileira atribuir às “elites” a culpa por nossas dificuldades. O que exatamente significa essa asserção?

Na história e no mundo as elites sempre foram responsáveis pelos sucessos e fracassos das civilizações, culturas e suas organizações política, econômica e social; assim continuará e o Brasil não foi nem será exceção. As grandes construções políticas e religiosas, a epopéia dos descobrimentos, o renascimento, o iluminismo, as revoluções francesa e russa, o capitalismo, a democracia, o comunismo, o colonialismo e a descolonização, a revolução industrial e o avanço da ciência e suas aplicações não teriam ocorrido sem as elites que puxaram o carro. O povo no papel protagônico espontâneo é fantasia populista: sua participação natural é a de multidão figurante, mobilizada e orientada por elites.

Mas quem integra as elites que puxaram (puxam) o carro? Com participações emersas de qualquer etnia, raça e camada social, exercendo influência para o bem ou para o mal, para o avanço científico ou para a destruição de instalações de pesquisa, integram-nas: a intelligentsia (ciências humanas e exatas, universidade, literatura, arte, profissionais liberais, mídia), políticos de vários matizes ideológicos (ou apenas interessados no usufruto do poder), militares, empresários dos vários setores, burocracia pública e privada, hierarcas religiosos, sociais e sindicais e por ai vai. No sentido abrangente da palavra (os que puxaram / puxam o carro), Maomé, Lutero, Robespierre, Lincoln, Marx, Lenine, Lumumba, Ho Chi Minh, João Paulo II e Martin Luther King, exemplos simbólicos, foram elites. Fidel Castro, Evo Morales, Pelé, Kofi Annan e o nosso Presidente, as lideranças da CNBB, FIESP, CUT e do MST, são elites.

Apesar da clara diversidade da composição, a retórica brasileira de sabor político é vaga a respeito e sugere caber a responsabilidade por nossos problemas – omitidos os sucessos – essencialmente às elites tradicionalmente caracterizadas pelo destaque socioeconômico, com seus ideólogos e sua representação política, que de fato participam da culpa, mas sem monopólio e perdendo espaço para outras participações, no balanço do poder de influenciar. Essa imputação tendenciosa não reflete a realidade completa e complexa: há avanço se as diversas participações nas elites são competentes em suas respectivas áreas – quesito crescentemente pautado pela educação que, há um século, vem substituindo ou complementando a classe social, propriedade e riqueza como parâmetro de elite influente. Índia e China (o mandarinato chinês de há 3000 anos já era alicerçado na meritocracia do saber) são exemplos em evidência: forte empenho na educação e o efeito positivo de suas elites bem qualificadas. Se são incompetentes, ocorre o  atraso.

O quadro delineado preocupa no Brasil, onde as elites lato senso deixam a desejar no quesito competência (e na ética…), ensejando a mediocridade generalizada, transparente em alguns corolários relevantes: o antagonismo entre o mérito e o ideal igualitário, manifesto na tendência, espontânea ou induzida, à redução da desigualdade mais pelo rebaixamento dos de cima do que pela elevação dos de baixo – o que explica, por exemplo, expor a universidade a risco, quando o conveniente seria a melhora significativa do ensino fundamental. O comportamento social de frouxidão moral e de lúdica licenciosidade macunaímica, da rotina do cotidiano ao carnaval. A banalização pandêmica e permissiva do desrespeito à civilidade e à lei, do simples mau comportamento e do delito trivial ao caixa dois, à violência contra a vida e propriedade. E algumas disfunções culturais, como são a vulgaridade nos meios de comunicação de massa, a mistificação religiosa, o enaltecimento da cultura e arte populares e o descaso praticamente excludente pelas clássicas (se autênticas, tudo bem com as populares, errado é ver Vila Lobos e Machado de Assis como desvios de minorias alienadas…).

Finalmente e preocupante porque prejudica a qualidade e credibilidade da democracia e suas instituições e dificulta a correção das anomalias nacionais: deixam a desejar ensejando a mediocridade generalizada sensível na escassez de atributos positivos em parte da elite política, oriunda dos vários setores e camadas da sociedade, cuja carência de cultura, ética e visão de Estado e de futuro é refletida já no padrão da propaganda eleitoral. O tão falado usufruto patrimonialista e clientelista do Estado pelas elites realmente existe, assimilado na nossa complacência cultural, mas deve ser visto sem preconceito, em sua plenitude: se no Império e 1a República a elite usufrutuária era a tradicional rural, sua composição “democratizou-se” e incorporou outras fontes, como a elite sindical, hoje muito à vontade no poder político-administrativo.

Complementando e reiterando: a transformação do potencial em poder e felicidade social depende da competência (e da ética) das várias participações nas elites que puxam o carro, cabendo a todas, em grau variável com os temas e a conjuntura, a responsabilidade por nossos percalços, pelo nosso desenvolvimento econômico senoidal, social e culturalmente insatisfatório e ambientalmente predador, pela ameaça de o Brasil continuar a ser apenas um grande país periférico (em figura metafórica: a 5a população do mundo e a maior católica, sem um prêmio Nobel e um santo sequer…), eterno emergente com descalabro social e crescimento do PIB inferior ao realizável, à média global e ao de países que de fato emergem. Os rumos correntes na vida nacional não sugerem otimismo quanto à superação desse quadro, em curto prazo…

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