Julio Hegedus Netto

Uma semana infernal para os mercados. No Brasil, um sentimento de insatisfação com “tudo que aí está” aflorou pela sociedade, com manifestações espalhadas por todos os rincões do país; no exterior, o desmonte da política de compras de títulos foi definido para ter início a partir de setembro próximo, o que significará menos liquidez global e um dólar mais apreciado. Isto vem provocando reposicionamento dos investidores, em busca de segurança e mais rentabilidade no futuro, diante do segundo movimento do Federal Reserve (Fed), de elevação do juro, talvez a partir de 2015. Façamos então uma análise destes dois fatos detonadores, observando possíveis corolários sobre os mercados.
 

Manifestações pelo Brasil a fora
Interessante observar que estas eram esperadas por todos. Ninguém entendia como a sociedade se mantinha tão passiva diante de tantos escândalos de corrupção ocorrendo, como obras superfaturadas de estádios de futebol, “Mensalão”, atrasos de obras de infraestutura, loteamento de cargos públicos (tráfico de influência), etc. Em algum momento este “estado de coisas” teria que vir a tona. Veio depois de um protesto prosaico contra reajustes de tarifa de transporte nas grandes capitais, ordenado por um grupo pouco conhecido, o Movimento Passe Livre (MPL). Prosaico, porque dentro do arcabouço da nossa economia, ainda muito indexada, reajustes de tarifas acontecem todos os anos, ainda mais agora, quando se tem uma inflação ascendente, em 12 meses passando do teto da meta de 6,5%. Este fato, no entanto, acabou sendo o estopim para o povo ir a rua, com milhões protestando contra “tudo que aí está” nas principais capitais do País. Manifestações aconteceram todos os dias na semana passada.

Na opinião de cientistas políticos, estas manifestações, dentre tantas razões, ganham força diante do esvaziamento da oposição no Congresso. Como esta, formada por PSDB e DEM, é considerada fraca, e o governo, formado com partidos de esquerda, controla os movimentos sociais e os sindicatos, não restou à sociedade outra saída para se expressar se não ir às ruas. Cabe ressaltar que estes movimentos são difusos e sem lideranças. Qual seria então a pauta de reivindicações? É bem variada, indo da melhoria de serviços públicos de baixa qualidade, passando pelo fim da PEC 37 (tira do Ministério Público o poder de investigar sobre ilícitos de políticos), excessiva carga fiscal de 37% do PIB, até chegar à sistemática corrupção existente nas esferas públicas. Para muitos, o que temos é o Estado se distanciando da sociedade e isto demandará do governo uma ação imediata, um choque de credibilidade. Fala-se na necessidade de um forte enxugamento da máquina pública, na redução dos 39 ministérios existentes (sem coordenação nenhuma, o que emperra a já atolada máquina pública), assim como mudanças de ministérios desgastados.

Desmonte da política de estímulos do Fed. Em meio à tensão política e social no país, o que vem nos colocando entre os emergentes mais expostos, tivemos a reunião do Fed na semana passada. Nesta, ficou mais ou menos definido o processo de desarme da política de compra de títulos, a se iniciar a partir de setembro próximo, desde que os indicadores atinjam a meta definida: a inflação ir a 2% e o desemprego recuar a 6,5% da população economicamente ativa (PEA). O primeiro segue baixo, próximo a 1,2% em 12 meses, decorrente da economia retomando ainda de forma errática, e o segundo segue melhorando, em torno de 7,6%, mas ainda em ritmo lento. A lógica deste desmonte seria a seguinte: primeiro, o Fed iniciaria um processo de redução da compra de títulos, depois, dependendo da resposta da economia, começaria a elevação do juro. Esta teria que ser gradual, assim como o desmonte, visando não gerar o estouro de alguma bolha, ou mesmo uma crise de crédito.

Corolários destes fatos. Ambos os acontecimentos, conjugados, acabam potencializando a saída de investidores do mercado brasileiro, o primeiro, pela perda de credibilidade, o segundo, pela atratividade dos títulos norte-americanos e o reposicionamento dos investidores externos, diante de uma maior migração de capitais para os EUA. Com isto, o dólar segue apreciado, impactando na nossa inflação, assim como as commodities, em queda. Pelos nossos descaminhos domésticos, as agências de rating começam a colocar a nossa nota em perspectiva negativa, o que é prejudicial para as captações externas, encarecidas. Os movimentos recentes da inflação indicam os preços ao consumidor recuando em junho e julho, pela revogação do reajuste de transporte (2,6% do IPCA) e o menor impacto dos alimentos.

Por outro lado, surge a preocupação com o câmbio depreciado acima de 5,6% no mês e 10,2% no ano, em torno de R$ 2,25 que, se mantido neste patamar, deve resultar num repasse sobre os preços no segundo semestre.

Sendo assim, retornamos ao que já foi dito. O governo Dilma só conseguirá reconquistar a confiança externa e retomar sua governabilidade se um choque de medidas críveis for adotado. Se nada for feito, correrá o risco de ter problemas para ser reeleita em 2014. Com a palavra a própria presidente.

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