Errar é humano e, no entanto, inventamos profissões que excluem o erro. Certa vez, conversando com o antropólogo social mais importante da história da disciplina, o professor Claude Lévi-Strauss – mencionei o seu celebre estudo sobre As Estruturas Elementares do Parentesco para ouvir uma frase perturbadora: ‘Mas, caro colega – disse-me ele calma e formalmente – trata-se de um livro errado…’

Deixo de lado as circunstâncias que levaram ao pronunciamento exagerado e provocador. Meu problema não é entrar no mérito da polêmica técnica, a ser entendida por meia dúzia de etnólogos antigos, mas simplesmente remarcar que é possível escrever um livro errado. Não é, obviamente, o caso do mestre francês. Mas a observação realizada por um dos gênios que tive a ventura de conhecer pessoalmente, abre o tema desta crônica: a existência de atividades em que o erro é possível e, até mesmo, muito comum; em contraste com as ocupações incompatíveis com o engano.

Uma lição errada tem menos conseqüências do que a chifrada de um touro, o esquecimento de uma tesoura na barriga de um paciente ou o choque de dois aviões.

Existem profissões compatíveis com o que chamamos de ‘barbeiragem’ e ocupações que não admitem engano ou descuido. Quando eu tinha uma vasta cabeleira, fiz um corte radical. Ao mostrar meu novo visual para minha sogra, ouvi o comentário: ‘Não se preocupe, o cabelo cresce…’

Corrigir um texto, substituir o remédio, costurar novamente o casaco, trocar a cor do cabelo, são correções normais de curso, quando descobrimos as conseqüências negativas de alguns de nossas ações sociais. O problema é que, em sociedade, nem todo malfeito, pode ser corrigido. Meu filho era piloto e tinha plena consciência de que não podia errar. Durante quase duas décadas ele comandou aviões Boeing 737-300, mas jamais deixou de realizar todos os procedimentos padrão durante o vôo e, sobretudo, nas decolagens e na aterrissagens. Eu, entretanto, faço sempre o Sinal da Cruz. O que também produz conseqüências, mas de outro tipo…

Erving Goffman, um sociólogo muito lido nos anos 70, dizia, num brilhante ensaio chamado Where de Action Is? (onde está a excitação?) que, na sociedade americana, a idéia de ‘ação’ conotava movimento, risco e excitação exatamente porque possuía uma cota de erro fatal ou de perda irrecuperável. Como exemplo de profissões marcadas pela ‘action’ – por essa dimensão complexa de risco e de excitação, Goffman citava a ocupação de toureiro, de jogador de roleta profissional e a de trapezista. E mencionava a famosa família dos Voadores Wallenda, o grupo de acrobatas alemães que, depois de um sério acidente, ouviu de seu patriarca, o famoso Karl Wallenda, algo mais ou menos como: a vida está lá em cima, no arame, e não aqui embaixo.

Estou invocando os riscos embutidos em certas atividades, não apenas porque elas são boas de pensar e esclarecem o prestígio de certas profissões, mas porque tendo sido vítima do nosso inapagável e impagável apagão aéreo pensei, como tantas outras pessoas, nos riscos que uma greve ou uma rebelião dos profissionais dessa área trazem ao transporte aéreo no Brasil.

Discutir abertamente esses elementos de risco, que certamente fazem o charme de muitas carreiras, é algo profundamente ligado às conseqüências previstas (ou não) de sua atuação profissional.

Num mundo cada vez mais dependente de precisão técnica, como o nosso, os especuladores, ou seja: aqueles que têm como profissão o erro no sentido lato do termo, justamente porque podem sempre desdizer-se e assim abrir novos espaços para o pensamento, como ocorre com os dramaturgos, os artistas, os poetas e antropólogos da minha tribo, é um desmando e uma irresponsabilidade do governo deixar que controladores de vôo – justamente esses caras que, como os toureiros e os cirurgiões, não podem errar, não tenham resolvido seus problemas. Quaisquer que sejam esses problemas!

Se evitar o erro nas profissões de alto risco é algo exorcizado pela clareza dos procedimentos – pela leitura obrigatória das normas de ação, pelo treinamento dos seus profissionais, e pela responsabilidade no exercício do papel -, a única providência a tomar nesses casos é assumir a atitude de resolver o assunto com determinação e sem nenhum ambigüidade. Imagine o trapezista que, no ar, e depois de um salto mortal, imagina se pode ou não contar com a mão do apanhador porque este decidiu realizar uma operação padrão?

Enquanto esse problema não for cabalmente equacionado, estaremos trivializando o alto risco nos céus do Brasil. É tudo ‘político’ e muito bem marcado pelas tintas ideológicas, até que um acidente venha a nos ancorar a todos nos túmulos das vítimas de um outro acidente. Porque, como sabe quem brinca com fogo, existem ocupações que a punição não chega com o milagre da aplicação da lei ou com a prisão que não existe no Brasil atual, mas vem a cavalo, com a tragédia, a perda e a dor que não tem remédio. (Faço uma pausa para ‘férias’ e me encontro novamente com vocês na primeira quarta-feira de agosto).

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