Poucas imagens refletiram com mais poder e candura o vasto simbolismo dos gatos no Brasil do que o flagrante do roubo de água pelos donos de uma mansão num bairro nobre da zona sul do Rio de Janeiro. Na competição pelo ‘troféu gato’ de uma semana fértil de eventos perturbadores, só o retrato do estupefato rabino preso em Miami; a declaração racista da ministra Matilde Ribeiro; e a foto do astronauta Marcos Pontes, aterrado por mais um capÍtulo da infindável novela do apagão aéreo.

Em nossa sociedade, a palavra ‘roubo’ fere os nossos nobres ouvidos e deve ser aplicada somente aos que se conformam aos tipos que, pela letra do nosso preconceito, têm ‘cara de ladrão’ – normalmente, os pretos pobres; os indivíduos mal falantes e vestidos, mal apresentados e sem postura; os que, logo se vê, não tendo amigos importantes, têm ‘jeito de gente desclassificada’.

É trivial, no Brasil, substituir as ‘más palavras’; as expressões mais precisas – mentira, desfaçatez, preguiça, ladroagem, mendacidade, estelionato eleitoral, etc… – por termos como lorota, brincadeira, pizza, engano, falta de estudo, mensalão, esperteza e malandragem. Com isso, amaciamos e liquidamos as ofensas, transformando crimes em piadas ou dramas sem maior importância, capazes de chocar somente a moralidade pequeno-burguesa. Se o roubo e a insinceridade sempre foram parte do governo; se as coisas só mudam quando mudar toda essa estrutura podre que aí está, então por que se preocupar com quem rouba algumas centenas de milhões, mas faz viadutos? Qual é o problema com quem deixa ao deus-dará a crise gravíssima dos transportes aéreos, faz declarações racistas ou rouba água ou gravatas?

É significativo que, no Brasil, gravíssimos delitos políticos ou desvios criminosos cometidos por altas autoridades, que deveriam ser as primeiras a primar pelo exemplo de circunspeção e honradez, sejam imediatamente transformadas em metáforas engraçadas, de modo que o delito vira uma ‘pizza’, uma ‘malufada’, um ‘mensalão’, uma ‘alopração’ ou um engano, o que faz com que vire motivo de riso e seja digerido como algo normal: parte e parcela do poder e das administrações públicas que, coitadinhas, são sempre bem-intencionadas e incapazes de praticar qualquer mal.

Com isso, os leões, os jacarés e os elefantes da desonestidade, viram leves e fofos gatos da esperteza. ‘Gatos’ que, como figura de linguagem para o roubo, provocam nada mais do que um riso cúmplice, sinal de que todos entendemos muito bem os motivos dos que apenas realizavam um ato de legítima e esperta defesa contra o ‘governo’, o ‘Estado’ ou qualquer coisa que represente esse lado mais formalizado do sistema.

Aos governos e gestores públicos dos quais somos responsáveis e que nada, mas nada mesmo – nem as solenes promessas de campanha, nem sequer um gesto ou palavra de satisfação – nos dão de volta, damos em retorno, não batatas ou bananas, mas ‘gatos’. Gatos na forma de delitos que têm a ver com a casa e são por ela englobados. De tal modo que dificilmente um brasileiro maior e vacinado consideraria criminoso ‘tarrar’ luz, água, gás ou até mesmo leite, açúcar ou o sagrado pão nosso de cada dia.

Aliás, na teoria da corrupção nacional, o gato nada mais é do que um sintoma da pífia relação entre Estado e sociedade que, no Brasil, não são vistos como manifestações de uma mesma coletividade, mas como os lados insondáveis de uma mesma moeda. Moeda que tem como cara a efígie de um leão (que nos cobra cada vez mais de tudo) e, como coroa, a figura de um gato na forma de uma insuportável incompetência administrativa que, silenciando cruelmente diante de todos os desvios, demandas e necessidades sociais, transforma em inferno o coditiano do cidadão comum.

‘O gato é engendrado dialeticamente pela total indiferença de um administrador, legitimamente eleito precisamente para gerenciar aquilo que ele produz, as mais sinceras desculpas para não realizar. Eis, numa cápsula, o gato de botas da crise brasileira.’ Diz-me numa mensagem pomposa meu amigo e mentor Richard Moneygrand, comentando um rascunho desta croniqueta.

Como ser honesto e matar o gato, se o exemplo cotidiano é o de uma alternância entre insinceridade e desonestidade do administrador público, eleito para jamais errar, para não roubar e deixar roubar, para atacar os problemas e promover crescimento e devolver ao povo a sua auto-estima, mas que faz tudo ao contrário?

Se a marca do Estado é a apropriação da renda dos que produzem para o enriquecimento dos que estão no poder e suas adjacências, como comprovam os sucessivos escândalos políticos nacionais, como cobrar e exigir a honestidade do cidadão comum?

O gato é, sem dúvida, uma elo na cadeia de impunidades que começa e termina em administrações públicas que gritam muito e fazem pouco; que exigem muito do cidadão e nada dão em troca. De um estilo de gestão que, tem sempre vivido do gato, para o gato e pelo gato. Diante do gato fotografado, filmado e televisionado, vale lembrar a frase síntese e definitiva de um grande gestor público: o gato é ilegal, e daí?

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