Emoção, consumo e consumismo

Durante muito tempo, os economistas estimaram que consumidores e produtores eram estritamente racionais. Pesariam custos e benefícios com precisão matemática. A opção pelo investimento em renda fixa ou em ações também se adequaria a essa lógica meramente quantificável.

O fato é que o grau de emoção aplicado às decisões econômicas, o fascínio por marcas de luxo ou a predileção pelo risco e a aventura também moldam comportamentos. Muitos pressupostos tradicionais da microeconomia, como a busca perene da maximização de satisfação do consumidor, permanecem válidos. Não constituem, porém, uma “teoria geral” do sistema de alocação de recursos, que precisa ser complementada por variáveis de natureza emocional.

Com mais escolaridade obtêm-se mais ferramentas para uma vida econômica saudável. Neste mundo de aguda especialização é comum, no entanto, encontrar profissionais da pedagogia, medicina, direito, jornalismo, arquitetura ou de qualquer outro ramo do conhecimento, que não dominam sequer os rudimentos da educação financeira.

Ph.Ds. em economia por vezes passam agruras na hora de pagar as contas no fim do mês. Pessoas sem instrução formal tornam-se grandes investidores e empreendedores. Isto realça o papel das variáveis “além-razão” nos resultados econômicos. Mesmo porque, ademais da qualificação técnica, um dos pilares básicos da economia é o bom senso.

Não há no cérebro um sistema de mercado perfeito, em que a distribuição de recursos e as decisões sejam puramente racionais. Se isso existisse, todos destinariam parte da renda à formação de poupança, ao investimento no amanhã.

Seria útil aplicar parâmetros da boa gestão de uma empresa para balizar a economia pessoal. Qual o futuro de uma companhia que não reinveste parte importante de seus lucros? Fazer com que renda e consumo permaneçam elevados ao longo do tempo é fruto de um processo recorrente de reinvestimentos (financeiros, educacionais, etc), e para isso é preciso poupar.

E nesses tempos brasileiros de grande expansão do crédito – e infelizmente pouca poupança nacional – é importante diferenciar consumo e consumismo.

O primeiro é um conceito eminentemente econômico. É a parcela da renda destinada à aquisição de bens ou serviços. O segundo remete à crítica moral e à psicologia.

Para alguns, consumismo é o termo pejorativo que condena marcas desejadas globalmente em setores como moda, joias, cosméticos ou automóveis. É uma crítica vazia. A indústria do luxo tem papel vital na economia da criatividade, no design e na inovação – e, portanto, na geração de mais prosperidade.

Desde que, é claro, seja sustentável do ponto de vista ambiental e do equilíbrio das economias pessoais. O consumo precisa caber na renda individual e ainda deixar espaço para poupança.

Já no âmbito psicológico, consumismo denota uma pulsão a gastar sem reflexão. Aqui está o perigo. Dá-se o nivelamento de prioridades.

Dispêndios realizam-se sem qualquer hierarquia. Atribui-se igual importância à aquisição de supérfluos ou a moradia, alimentação, saúde e educação. Significa abrir mão de planejamento econômico, de qualquer poupança e, no limite, de recursos para a construção do futuro.

Fonte: Brasil Econômico, 19/07/2011

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