Empreendedores que não empreendem

Um tema sempre recorrente nos debates sobre a presença do governo na economia surge quando de uma nova regulação. Seja a “Lei Seca”, a nova regulamentação das farmácias, ou a nova Lei Rouanet. A epidemia do aumento da presença do governo em detrimento da sociedade é sempre acompanhada de críticas cuja principal essência é: “mas esta intromissão não é necessária, o mercado poderia resolver este problema”.

Sou simpático, pessoalmente, a esta crítica. Mas confesso que não vejo muito motivo para entusiasmo. Se nossos empreendedores são tão bons, porque não resolveram o problema antes? Aprendemos com Ronald Coase que o mercado pode, em vários casos, resolver o problema das externalidades. Aprendemos com Schumpeter e um bando – nada desprezível – de economistas que os empreendedores são sujeitos arrojados, desafiadores, que buscam todos os meios – às vezes até extrapolam criminalmente – para lucrar.

Pois onde estavam estes empreendedores quando o problema persistia por aí? Em casa? No escritório? Alguns falam do excesso de regulamentações do Brasil. Nesta argumentação, é verdade, os empreendedores perderiam muito tempo tentando não se transformar em bandidos. É fato que vários burocratas do governo aumentam sua renda, de forma ilegal, por meio de leis complexas que barateiam o suborno em detrimento da eficiência econômica. Ainda assim, prevalece a pergunta: se o empreendedor é tão bom assim, porque tão rapidamente sucumbe à tentação da corrupção?

Há também a espantosa apatia. Senadores se digladiam, candidatos fazem campanha fora do prazo, burocratas aproveitam o momento para rasgar a responsabilidade fiscal criando subsídios e custos sociais que jogam para o futuro e os empreendedores – que também são cidadãos – permanecem apáticos. Claro, há os que participam do “jogo sujo” e apenas aparentam a imobilidade. Mas e quanto aos outros? Onde estão?

Sempre se pode dizer que o problema não foi resolvido porque havia um muro intransponível de dificuldades. Há um problema de externalidade no fumo em locais públicos? Há. O mercado pode minimizar este problema social? Se você acredita que a criatividade humana é uma benção, a resposta é um estrondoso “sim”. Então, novamente, por que isso não foi feito?

Talvez a solução para estes problemas deva começar por uma reflexão diferente das que normalmente fazemos. Ao invés de culpar o governo, os burocratas ou as leis, devamos, antes de mais nada, levar um pouco mais a sério o que nós mesmos dizemos sobre empreendedorismo e… empreender. Chega de tratar mal o consumidor. Chega de culpar os “oligopólios”, as leis, a China etc. por isso. Vá lá que o simples pensamento positivo não mova montanhas, mas não será por meio da choradeira que alguém merecerá o nome de empreendedor. Muito menos de um empreendedor que tenha algum significado na história deste país.

Há custos e benefícios envolvidos em uma mudança de atitude, obviamente. Mas muito do custo é subjetivo e, portanto, uma mudança de atitude pode ser menos difícil do que parece. Até que as pessoas acordem, a destruição das instituições políticas (e mesmo econômicas) continua, lentamente e de forma quase imperceptível. A boa (má) notícia é que não existe solução fácil ou mágica: tudo depende da ação de cada um. Voltando aos exemplos citados no início deste texto, pergunto aos colegas defensores do mercado: por que tanta lentidão dos empreendedores em resolver os problemas e tanta rapidez para reclamar? Se isso é empreender, então o futuro é perigosamente sombrio para o país.

(Publicado em OrdemLivre.org)

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2 comments

  1. Juliano Rossini

    Muito bom! Téquinfim uma alma liberal disposta à auto-incriminação!
    Excelente mea culpa!
    É disso que depende o aprimoramento do homem e do cidadão…

  2. Wolmar Murgel Filho

    Mea culpa….

    Autocritica….

    É dessas coisas que se alimenta a esquerda autoritária… sempre a seu favor.

    Se as coisas não estão boas, culpe o governo… se o governo não resolve então culpe a sociedade, se esta não é justa, culpe os ricos e se a moda pegar culpe os judeus. Agora, se nada mais der certo, culpa a ti mesmo

    Eu não visto esta carapuça. Este é um jogo sujo de perde-perde onde so ganham aqueles “que querem mudar o mundo” e só conseguem piorar as coisas para todos, mas a CULPA nunca é deles mesmos.

    Tamanha capitulação so pode ser comparada à entrega frente o estupro iminente