O Brasil atravessou silenciosamente, em 2007, uma fronteira que dá o que pensar: passou a marca dos 10 milhões de funcionários públicos. Tudo isso? É um número e tanto, assim à primeira vista. Qualquer coisa que chega aos 10 milhões parece grande – e no caso, quando se pensa no serviço que o público recebe em troca do que paga para sustentar essa gente toda, parece maior ainda. Seja como for, é por tais alturas que andamos. Segundo levantamento apresentado tempos atrás pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil fechou o ano de 2007 com 10 168 680 cidadãos nas folhas de pagamento da União, estados, municípios e empresas estatais, número que está crescendo a uma média de quase 1 000 novos funcionários por dia; no começo do atual governo o total era de 8,8 milhões. Nesse ritmo, pela aritmética comum, vamos chegar ao fim de 2009 nas vizinhanças dos 11 milhões de servidores.

Nenhum problema, segundo nos garante o Ipea, órgão federal que deveria servir ao público mas que ultimamente tem servido como uma espécie de braço estatístico do PT: a quantidade de gente hoje empregada pelo governo não chega a 11% da “população economicamente ativa”, ou em condições de trabalhar. De acordo com os dados do mesmo levantamento, o Brasil tem menos funcionários, proporcionalmente, que a Austrália ou a Holanda, ou mesmo os Estados Unidos – onde, conforme nos esclarece a prosa utilizada pelo Ipea, a economia é “caracterizada por seu caráter privatista”. A informação seria apenas uma tolice – e daí, se na Austrália é assim e na Holanda é assado? – se não fosse também uma tentativa de massagear algarismos para dar base numérica a uma ideia oficial: a de que o estado brasileiro não está inchado “por um suposto excesso de funcionários públicos”.

A questão que interessa, naturalmente, não é saber se o estado brasileiro está inchado ou está murcho, em comparação com países que não têm nada a ver conosco; o que importa é saber se o Brasil precisa mesmo de todos os funcionários que tem, se eles estão nos lugares em que deveriam estar e se ganham o que merecem pelo trabalho que fazem. Não há, em relação a nenhum desses pontos, o menor sinal de resposta. O que existe, de sobra, são evidências de calamidade. Falta gente em serviços essenciais. Grande parte dos funcionários trabalha mais do que deve e ganha menos do que o seu trabalho vale. Suas chances de avançar na carreira pelo mérito são mínimas; servem a um patrão indiferente, que não recompensa quem trabalha melhor nem pune quem trabalha pior. Frequentemente, em obediência a regras ou leis que não foram escritas por eles, passam o tempo entregues a atividades inúteis, ilógicas ou prejudiciais aos cidadãos que produzem e pagam seus salários. Submetem-se a concursos em que há milhares de candidatos por vaga, enquanto veem, todos os dias, os políticos encherem o serviço público com gente que não prestou concurso nenhum – só na área federal, durante o atual governo, aumentou-se para perto de 80 000 o número de “cargos de confiança”, nos quais quem manda no país pode empregar livremente amigos, parentes e associados de diversas naturezas.

Nada se compara, nesse ponto, ao espetáculo de empreguismo alucinado que o Senado Federal exibe ao público exatamente agora, dentro do processo de depravação generalizada no qual vem se afundando cada vez mais nos últimos meses. É um dos grandes momentos do pensamento oficial, sem dúvida, afirmar que o funcionalismo brasileiro está “enxuto” quando se descobre que o Senado mantinha há anos um sistema de “atos secretos” para esconder os empregos dados a parentes, contraparentes e agregados dos gigantes da vida pública nacional. A coisa fica ainda mais feia quando se constata que o desastre começa bem no topo, de onde deveria vir o bom exemplo – justo com o presidente da casa, senador José Sarney. (O ex-presidente da República é tido como um dos políticos mais bem informados do Brasil. Ao mesmo tempo, é um dos menos informados. Não sabia que um neto e a mãe do neto tinham empregos no mesmo local de trabalho frequentado por ele – além disso, tinha duas sobrinhas com cargos no Senado. Não sabia que a casa tinha 181 diretores. Não sabia que ganhava um “auxílio-moradia” de 3 800 reais por mês. Não sabia que um alto funcionário da casa, de cuja filha acaba de ser padrinho de casamento, tinha uma residência avaliada em 5 milhões de reais em Brasília. Na semana passada, fez um discurso indignado – contra a divulgação disso tudo na “mídia”.)

Ainda bem que não há um “suposto excesso de funcionários” neste país.

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