As 20 escolas com melhor resultado do Enem são privadas.

Porém, dizer só isto e concluir que a escola pública é um fracasso por ser pública não serve de subsídio para se entender o que passa. As escolas técnicas federais, antigos CEFETs, atuais IFs contam com elevado nível de concorrência para ingresso do professor. Os salários iniciais com mestrado são da ordem de R$ 5.000,00. Mas, não são boas só por isto. O aluno passa por avaliação prévia, como um vestibular. É um modelo bastante antigo, dos milicos se não me engano. Aliás, na época deles, ao contrário que se diz por aí, o ensino era muito melhor…

Aqui em Florianópolis, a escola que até bem pouco tempo mais aprovava nas universidades mais concorridas (que são públicas) era a militar.

No entanto, esta polarização entre socialistas e liberais empobrece o debate. Perde o foco mesmo. Se mais de 600 dentre as 1.000 piores avaliadas são públicas e apenas 35 destas estão entre as 1.000 melhores há um fato inquestionável: o ensino público está péssimo. Não adianta socialistas chiarem nem brigarem com números. No máximo pode se questionar a metodologia do ranking, mas não é o que costumo ver nas listas de discussão.

Por outro lado, os liberais que me perdoem, mas suas análises são ridiculamente pobres. Tem que se observar os detalhes: 50% das piores entre as públicas são nordestinas. E não me venham falar em preconceito, falemos em números que estão ali. O que provoca isto? Assim como a classe média se afastou do ensino público fazendo seu nível baixar, é sintomático que exista alguma correlação entre os índices e uma dada tradição. Se não gostou, brigue com quem formulou a pesquisa, diga que o Enem não avalia nada… No que não concordo, apesar de achar o Enem fraco: a prova deixa a desejar frente outras, como a Fuvest dos anos 80, p.ex.

Outra questão importante é por que algumas públicas estão entre as melhores se, como dizem por aí, é “lixo”? Isto é infantilidade, torcida… Nível baixo de argumentação, tão baixo quanto as piores notas da pesquisa em debate.

Por outro lado, o estado é dividido em vários níveis, esferas e o que se esperaria, caso a pesquisa servisse para algo efetivo é que o exemplo destas boas escolas públicas fosse estudado e, quiçá, adotado como modelo. As boas escolas públicas são federais, distantes da formulação de diretrizes locais, municipais do ensino. Ou seja, a própria sociedade não se envolve cobrando melhoria no ensino, que por sua vez parte, infelizmente, de Brasília. O que, aliás, eu detesto admitir, mas é o que os números mostram. O que elas fazem de diferente deveria ser nosso ponto de partida para o questionamento. É só salário? Com meus 20 anos de experiência na área digo que isto, sem dúvida, pesa, mas não é tudo. “Basta aumentar os salários dos professores para que a educação melhore” é o equivalente a dizer que para acabar com a corrupção policial basta aumentar o salário… Dos policiais corruptos!

Agora, longe de mim dizer que temos que melhorar o ensino público para que o ensino público se universalize. Vade retro! Nada disto. O que tem que haver é a competição, e não só com o ensino privado, mas entre todos os tipos de escola. Em outras palavras, a escola pública que funciona adota o melhor das escolas privadas. O melhor das melhores escolas privadas, bem entendido. Pois, o ensino privado via de regra no Brasil também é fraco. Ridículo, para dizer a verdade. Não adianta se comparar com a miséria intelectual e disciplinar e achar que está bom, assim como não adianta olhar para a Somália e achar que o IDH brasileiro está satisfatório. Quem solta foguete em nome da empresa privada porque está melhor do que o país tem de pior não conhece o meio cultural, a administração e a prática cotidiana do que foi avaliado.

O Enem foi feito para nivelar por baixo. Sem ele, dificilmente, os alunos da maioria das escolas públicas teriam alguma chance de ingressar nas universidades mais concorridas. Mas, vejam bem: quem criou o Enem é um ignorante em matéria de comportamento social. Isto é, de mercado. Pois, os alunos de escolas privadas, e cursinhos, também usam o Enem. Logo, são eles que obtêm os melhores resultados. Não adianta tentar curar febre com compressas de água fria. E se for para criar cotas para estudantes de escolas públicas também é falho, pois a classe média também está colocando seus filhos nas escolas públicas para lhes garantir vaga, nem que seja só no último ano como sacrifício. Tolice de quem não é do ramo criar o Enem, tolice de quem não conhece resultados/externalidades advindas de políticas públicas mal formuladas. Conheço gente, amigos que colocam seus filhos em boas escolas públicas podendo pagar por melhores instituições ou empresas. No entanto, estão agindo racionalmente, como agentes de mercado. Ou seja, o poder público criou um sistema, a guisa de melhorar a educação que favorece quem já não precisa.

Já se tornou um clichê dizer que se procura melhorar a ponta e não a base do sistema, o ingresso na universidade e não o fundamento de tudo, que é o ensino básico. Mas, a raiz disto está no fato de que o burocrata do MEC não conhece porque vive imerso em ideologias advindas do que há de mais inútil: uma pedagogia da ‘inclusão’, como se a capacidade do aluno aprender a concorrer e desenvolver seu potencial fosse perverte-lo.

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