Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Enfraquecimento de múltis brasileiras e sinais “difusos” limitam ações

O reingresso da economia do Irã na comunidade internacional pode parecer símbolo de um daqueles acertos da chamada “diplomacia Sul-Sul” abraçada pelos governos Lula-Dilma.

A normalização dos fluxos de comércio e Investimentos tenderia a favorecer aqueles países que, como o Brasil, mantiveram mãos estendidas a Teerã durante seu longo percurso de estranhamento com as potências ocidentais.

O Brasil foi crítico das sanções das grandes potências ao Irã. Ao final do segundo mandato do presidente Lula, o país buscou, juntamente com a Turquia, um caminho de reintegração do Irã a níveis normais de relações internacionais.

Conhecida como “Declaração de Teerã”, a iniciativa turco-brasileira reconhecia o direito iraniano ao desenvolvimento de um programa nuclear pacífico sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Ao ver do Brasil, as grandes potências não deram a atenção e o tempo necessário para que a iniciativa frutificasse, e o programa nuclear iraniano acabou objeto de renovadas sanções decididas numa votação do Conselho de Segurança em junho de 2010.

Historicamente, o Brasil sempre acreditou que sanções econômicas nesse tipo de caso (como na experiência da comunidade internacional em lidar com o Iraque de Saddam Hussein) levam apenas ao sofrimento da população e ao fortalecimento e radicalização do regime vigente.

Agora, para o Brasil, seria o momento de colher os frutos econômicos de determinadas ações de política externa dos últimos 13 anos.

No entanto, os impactos econômicos do fim das sanções ao Irã para o Brasil tendem a ser apenas marginais.

A formação de joint-ventures entre empresas brasileiras e iranianas é algo ainda fora do radar. Claro que muito da infraestrutura do Irã tem de ser fortalecida, e isso representaria indiretamente uma boa notícia para grandes produtores de commodities minerais, como a Vale.

Já a Petrobras, que poderia desenvolver um série de atividades cooperativas, encontra-se numa marcada retração internacional resultante da corrosiva combinação entre erros estratégicos e má gestão, tornada ainda mais grave pelos esquemas de corrupção que dilapidaram a companhia.

E, sem dúvida, a volta do Irã ao quadro de fornecedores globais de petróleo empurra para baixo o preço internacional da mercadoria.

Por um lado, o Irã ocupa costumeiramente o posto de terceiro maior exportador de petróleo, atrás de Arábia Saudita e Rússia. Por outro, o petróleo no Irã é obtido a baixo custo de produção e, portanto, não envolve maiores desafios de prospecção e extração. Isso diminui a competitividade do pré-sal brasileiro, onde Lula e Dilma depositaram suas maiores apostas.

Mas há também que notar que o Irã é um mercado de 80 milhões de pessoas. Potencialmente, trata-se de um grande objetivo para as exportações brasileiras de commodities agrícolas e também para nossa indústria de alimentos.

A boa relação que Brasília manteve com Teerã mesmo nos períodos mais árduos de imposição internacional de sanções também deveria, conceitualmente, beneficiar o Brasil na exportação de serviços, como no caso da infraestrutura, construção civil etc. Tanto mais considerando que muitas empreiteiras brasileiras possuem relevante experiência e histórico de sucesso no Oriente Médio.

Além do mais, o regime de Teerã não é afeito à “tomada de preços” na contratação de muitas de suas compras governamentais. Assim, muitas das decisões baseiam-se na preferência geopolítica que Teerã nutre por esse ou aquele país na hora de contratar empresas.

Essa oportunidade, no entanto, se dá numa conjuntura em que as empresas brasileiras encontram-se particularmente fragilizadas, em decorrência dos desdobramentos da Operação Lava Jato.

Nesse contexto, a China, maior importadora de petróleo do Irã, deve ver sua presença no mercado iraniano, também no setor de infraestrutura, ainda mais aumentada.

Malabarismos

Há, no entanto, outro fator a considerar para o Brasil.

Nem todos no “establishment” iraniano consideram Brasília um parceiro para o que der e vier (e ainda bem que é assim).

Se é verdade que Lula aproximou-se do Irã –estabelecendo afáveis relações com o “companheiro” Ahmadinejad–, não caíram bem em Teerã os malabarismos ético-verbais do ex-presidente brasileiro no caso da viúva iraniana Sakineh Ashtiani, condenada a apedrejamento e morte por suposto adultério e envolvimento no assassinato do marido.

Num instante inicial, Lula afirmou publicamente que, apesar de sua boa interlocução com a liderança iraniana, sua intromissão no caso Sakineh seria “uma avacalhação”, pois “é preciso levar em conta a legislação e a soberania de cada país”. Dias depois, Lula ofereceu asilo no Brasil a Sakineh.

Estávamos no ano eleitoral de 2010. Lula apoiava uma mulher à sua sucessão. Não queria dar a impressão de “padrões duplos”.

Ahmadinejad rejeitou a oferta do chefe de Estado brasileiro. E fez a Chancelaria iraniana emitir nota dizendo que “Lula tem um temperamento muito humano e emotivo e provavelmente não recebeu informações suficientes sobre este caso”.

Mais tarde, já como presidente eleita, Dilma conversou com Lally Weymouth, do “Washington Post”, indicando que, em seu governo, o Brasil mudaria a forma de enxergar a questão dos direitos humanos no Irã.

A entrevista rendeu a Dilma grandes elogios em todo o mundo –mas nada disso foi bem recebido em Teerã.

Assim, a conjuntura brasileira –com o enfraquecimento de muitas de nossas empresas transnacionais– e sinais “difusos” emitidos pelo Brasil mesmo durante o período Lula-Dilma ao Irã devem limitar o escopo de oportunidades.

Em meio a esse pesado jogo de interesses nacionais, visões terceiro-mundistas e campanhas internacionais em prol dos direitos humanos, floresceu em 2014 ao menos uma boa notícia.

Após nove anos no corredor da morte, o Irã perdoou e libertou Sakineh Ashtiani por seu “bom comportamento”.

Fonte: Folha de S. Paulo, 20 de janeiro de 2016

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