O autoritarismo se repete tanto quanto as eleições. Só que o traço familístico e personalista que o forma ocorre diariamente e surge nas negativas envergonhadas e cínicas das roubalheiras; enquanto a eleição desponta como um ato cívico. Um ritual de passagem do poder mais do que positivo emoldurado na forma pelos partidos, mas no fundo por pessoas, padrinhos e ventríloquos cuja sombra se projeta em certos candidatos. Qual é a fórmula do autoritarismo? Ela é banal: no Brasil todos os crimes e desafios dependem de pessoas. Se for X duvidamos; se for de classe média e não petista, é fascista.

Em véspera de eleição, determinados assuntos surgem nitidamente como propriedade de candidatos ou partidos. O PT aparece, mesmo alquebrado, como dono absoluto do Brasil. Ele condescendentemente relega seus opositores ao papel de incapazes de enfrentar problemas e de inimigos dos pobres. Mas, como compensação, o PT falha clamorosamente quando não explica como um sistema de corrupção tomou conta da vida pública brasileira nestes “momentos mágicos” em que tem governado. Nunca, jamais e em nenhum momento, as pessoas foram tão ou mais importantes do que assuntos, os crimes e as leis neste país quanto neste período lulo-petista. Daí o recorrente da máquina pública para o enriquecimento ilícito por meio do personalismo. Se é nosso, pode! Se for uma outra pessoa, polícia!

No Brasil, o significado profundo da palavra “poder” tem tudo a ver com a tomada de cargos

Centrado em protagonistas, o processo eleitoral amplia esse lado. Porque em campanha presidencial todos se apresentam como a “solução” para os problemas. Na refrega que vai terminar neste fim de semana, todos os recursos pessoais e institucionais são mobilizados na esperança de mudar os prognósticos das pesquisas.

Mas o fato é que o ritual eleitoral exerce pressão para votar. Nisso reside a esperança de quem espera mudar o jogo, indo para o segundo turno (caso de Aécio); ou simplesmente lá chegar sem maiores trepidações (caso de Marina); ou de vencer e liquidar a fatura neste primeiro embate (caso da presidente Dilma).

Os marqueteiros e observadores sutis ou medíocres, como é o meu caso, especulam e se abrem às angústias dominantes do não saber – essa máquina de fazer rezar e promover insônia.

Pessoalmente, eu gostaria que o eleitor estivesse também interessado em liquidar o “Você sabe com quem está falando?”, essa praga cultural que faz parte de nossa estrutura autoritária. Que revela o personalismo porque tenta distinguir, proteger e inocentar os que, em nome do povo e elevados a donos do poder, promovem a má-fé e uma intolerável transgressão dos limites entre a esfera pública (que é de todos) e a pessoal – a do partido, do compadre e do filhotismo. Hoje, graças ao PT e a uma exemplar ausência de oposição, partidos, parentes e companheiros se confundem.

Nascido de um sistema aristocrático, o nosso republicanismo acabou com o império, mas manteve o baronato. Hoje, ministros, senadores, magistrados, deputados e outros altos funcionários públicos, são muito mais patrões do Estado do que seus servidores. No Brasil, o significado profundo da palavra “poder” tem tudo a ver com a tomada de cargos. Tomar o poder é ter o gosto de “tirar” e de promover a “queda” de milhares de pessoas. O poder à brasileira é tão onipotente que ele pode até mesmo saquear o nosso dinheiro, como ocorreu no governo Collor e ocorre na roubalheira atual. Ele também censurou, prendeu, exilou e torturou no Estado Novo e na Ditadura Militar.

A reação sistemática contra a autonomia de certas instituições é um sintoma da relação entre pessoas e cargos estatais por meio do governo que faz a intermediação entre o Estado impessoal e grupos que passam a comandá-lo e, inevitavelmente, o fazem com um viés pessoal.

Seria isso feito apenas por maldade? Penso que é mais complicado. Não sou fascista, embora tenha alergia pelos reducionismos e pelo controle do mercado, da informação e do mérito. Sei como isso opera porque tenho observado o processo ao longo da minha longa vida.

Alexis de Tocqueville observou como, nos Estados Unidos, a democracia liberal e individualista promovia solidão e isolamento. Ele viu a luta para desmanchar elos pessoais, mesmo num país excepcional porque foi fabricado por imigrantes. Em sociedades que transitaram da monarquia para a República por meio de golpes (de elos pessoais entre poderosos), as oligarquias continuaram a operar juntando sua força familística ao poder do voto aberto e livre. Em todo lugar, a democracia tem recriado clãs pelo voto. É um defeito do regime ou da sociedade? Essa é questão.

O fato é que quando a maré vai mal os laços pessoais compensam a derrota política e ficam acima das clivagens ideológicas mais ferozes. No Brasil, sempre fomos nobres ou comunistas e fascistas generosos e, mais que isso, bem-educados e penhorados a quem nos prestou um favor ou roubou conosco.

Amor com amor se paga

Antes de votar, caro leitor, reflita sobre o personalismo que relativiza todos os crimes, caso o criminoso seja amigo, partidário ou parente. O que o país precisa é de um Plano Real Social. De uma moeda ética única, que discuta o espaço dos favores trocados com justiça e mérito; ao lado dos empenhos que conduzem a essas falcatruas que, realizadas debaixo do caldo do filhotismo, inibem a oposição e impedem a apuração dos carnavais de escândalos.

Isso para não falar da crise institucional envolvendo as polícias que, para alguns, atuam independentemente e, para outros, agem dentro de parâmetros partidários e familísticos para derrubar os nossos em favor dos adversários.

Você decide!

Fonte: O Globo, 01/10/2014.

RELACIONADOS

Deixe um comentário