Murar qualquer coletividade pobre é uma expressão concreta (com perdão pelo trocadilho) da nossa mais completa alergia à igualdade como um ideal político. Em vez de um muro, deveríamos estar discutindo projetos capazes de resolver esse estilo de moradia e existência. Repito que, sem essa atitude, o muro será um biombo a ser contornado pelo velho clientelismo político, cuja lealdade a si mesmo e ao poder que detém faz o Muro de Berlim ser coisa juvenil.

Amamos os muros e eles são parte dos nossos condomínios, bairros e edifícios. Mas são discutíveis em favelas, mesmo que sua intenção explícita seja a de proteger o meio ambiente. Quanto mais não seja porque, de saída, o projeto situa a nossa tão estuprada natureza (basta pensar na devastadora poluição da Baía de Guanabara) acima da dívida moral, muito mais do que política, que temos com os que são sistematicamente inferiorizados e estigmatizados pela nossa sociedade. O coletivo salva a pátria porque tira de cada um de nós a “cota de passagem” pelo sacrifício de uma existência mais igualitária, que implica viver menos aristocraticamente. Queremos a igualdade como aquele imperador chinês amava os dragões: quando eles foram visitá-lo no palácio, sua alteza imperial mandou matá-los um a um. Eram malcheirosos e expeliam fogo pela boca!

Foram nossos muros arrombados que fizeram com que um ilibado abolicionista, Joaquim Nabuco, exprimisse sua estranha saudade pelo escravo, embora fosse contra a escravidão. Do mesmo modo, somos contra a pobreza, mas não podemos viver sem pobres. Ou não foi exatamente isso que com a bênção da nossa mendacidade inventou as favelas? Se essa brecha no Muro de Berlim do nosso pensamento coletivo lhe parece absurda, leitor, conte os empregados (ou “criados”) que você tem em casa e faça o seguinte teste: (a) veja se você os conhece pelo nome completo e não apenas pelo apelido; (b) se você sabe onde e como moram e conhece sua história de vida; e (c) confira quanto você os remunera pelo seu trabalho (chamado eufemisticamente de “serviço”), descontando os velhos e batidos argumentos de cunho escravista que eles têm “casa, comida e roupas velhas” e, quando sabem o seu lugar, contam com a sua admirável solidariedade em caso de doença ou necessidade.

Viver num sistema igualitário obriga a derrubar o açucarado muro do escravismo caracterizado pela complexa interdependência entre fortes e fracos. Mas como pagar bem a arrumadeira, se isso implica dispensar a passadeira; o que levaria – eis o impensável – considerar despedir a cozinheira que herdamos de mamãe. Ademais, como diz nossa boa sociologia de revista semanal e salão, isso causaria uma crise aguda de desemprego. Pois a menos que o Estado intervenha, estaremos à mercê da sempre anunciada catástrofe social.

Em suma: continuamos pensando exatamente como os velhos escravocratas que nos inventaram e que, com teorias sociológicas da pior qualidade, nutriram nossos códigos administrativos e jurídicos “democráticos”. Republicanos sem deixar de ser aristocratas, adotamos tudo, menos a possibilidade de praticar a igualdade.

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Sem os muros das “cotas” – dos benefícios que cercam os altíssimos salários e o pagamento dos impostos, impedindo perceber claramente (mesmo numa era de estabilidade monetária) quanto desperdiçamos com a nossa máquina administrativa em todos os poderes, com seus empregos sem trabalho, com sua ética nepotista e partidária que despreza a eficiência, com seus “altos” funcionários transformados em nobres, pois não têm despesas pessoais, estão isentos da lei comum e só respondem aos seus pares; onde iríamos parar? Para onde iria a nossa necessidade de sermos superiores e inferiores? Sem os paredões, que garantem a má remuneração do trabalho e gratificam regiamente os nobres que fazem “política” cuidando dos pobres e famintos, onde iria parar o Dom João Charuto e os Pedros que dormem no fundo do nosso inconsciente? Aqueles que jamais correram o risco de, como os Luizes, assumir: eu sou o Estado!; mas falavam: somos donos do Estado! Num caso, a guilhotina resolveu; no nosso, não dá mais para separar o joio do trigo, se é que isso foi algum dia possível.

Eis o que quero dizer: a “farra das passagens” é, de fato, a passagem entre o absurdo de um Estado moldado de forma aristocrática, construído em cima de um sistema fundado na desigualdade – essa muralha monumental de uma administração pública como instrumento privilegiado de aristocratização e enriquecimento pessoal – e os ideais republicanos que adotamos no papel, mas que resistimos pôr em prática e a inscrever nos nossos corações.

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