Entre o corvo e a escrivaninha

“Por que o corvo se parece com a escrivaninha?”, pergunta o Chapeleiro Louco durante chá em que presentes estão vários personagens, inclusive Alice, aturdida.

“Por que o Reino Unido optou por sair da União Europeia?”, pergunta-se o mundo perplexo, como se charada insolúvel fosse.

Os afoitos respondem. Por que a burocracia de Bruxelas asfixia. Porque era preciso restaurar a soberania. Porque o temor da imigração desenfreada causa pandemia. Porque a Europa é doentia. Porque há gente com xenofobia. As respostas, simples demais. O motivo, complexo demais. Há razões ponderáveis para explicar o sentimento britânico, quer dizer, o sentimento majoritariamente inglês, já que Escócia e Irlanda do Norte não tiveram semelhante epifania. As próximas semanas trarão infindáveis análises de cientistas políticos, sociólogos, filósofos, economistas sobre o Brexit, a decisão tomada de divorciar-se da União Europeia depois de mais de quarenta anos de convívio. O momento pede reflexão, não respostas prontas.

O momento pede, igualmente, dose de realismo. Entre o corvo e a escrivaninha, há quem ache que os efeitos no Brasil hão de ser limitados. Que possivelmente haverá benefícios, como a interrupção dos aumentos de juros pelo Fed, o banco central americano. Sem corvo e curvada sobre a escrivaninha, discordo dessa visão.

Há três maneiras de tomar o chá do Brexit, todas elas nada alvissareiras para o Brasil. Primeiramente, há o fato nada conveniente de que o mercado errou. O mercado que achava até o último minuto que o bom senso econômico – eu disse “econômico”, nada mais – prevaleceria. Pois não prevaleceu. Bolsas caíram mundo afora, ações de bancos europeus desabaram, a libra escorregou túnel abaixo para o país das maravilhas, onde as leis da natureza são desconhecidas. Essa incerteza que conosco permanecerá, a incerteza do que vem depois, das turbulências políticas no Reino Unido e na Europa, dos desdobramentos dos próximos meses, será ela a guiar a aversão ao risco que há de predominar. Antes do Brexit o Brasil sofria com sua volátil conjuntura interna. Agora haverá de sofrer, também, com a volátil conjuntura externa, permeada de insondáveis incertezas, que haverá de perdurar por meses a fio. Como aprendemos a duras penas nos últimos dois anos, crises políticas não devem jamais ser menosprezadas. Não por outra razão a dirigente do Fed alertou há poucos dias sobre os riscos globais. Junto com ela, o FMI e outras entidades internacionais.

Em segundo lugar, há o deslocamento que o Brexit causará. Empresas que hoje gerem suas operações na Europa a partir do Reino Unido estarão inevitavelmente engajadas em reformulação estratégica, afetando o potencial interesse de investir em outros países. Dito de outro modo, aquela esperança de que há dinheiro estrangeiro esperando para comprar ativos baratos no Brasil se esvai, um pouco, ganha limites mais óbvios, um pouco. Não que não venha dinheiro algum, que fique claro. Mas, o Brasil isolado e relativamente pouco atraente não é destino agradável em momento de turbulência.

Por fim, há os anseios brasileiros por maior inserção internacional. O Brasil, por tanto tempo isolado, ensaiava os primeiros passos para agradar o mundo, chamá-lo para si, quando foi solapado pelo Brexit. Bad timing? Nossa sina. O Brexit, falho ou não, expõe sentimento anti-globalização e anti-livre comércio que tem se alastrado de modo alarmante mundo afora, conforme escrevi em artigo recente para esse jornal, intitulado “Intolerância”. Como fica o Brasil dos desejos de integração nesse contexto? O que dizer da possibilidade de negociar acordos de facilitação de comércio, ou mesmo acordos bilaterais, mais ambiciosos e demorados, nesse contexto? Como atrair a UE, nesse contexto? O Reino Unido? Os EUA?

“Por que o corvo se parece com a escrivaninha?”. Não vale dizer que Edgar Allan Poe escreveu sobre os dois. Mas vale dizer que a dúvida é cruel. Cruel como o quadro imponderável que se abate sobre o mundo com o Brexit.

Fonte: “O Estado de S. Paulo”, 24 de junho de 2016.

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