Entre os bons sinais da inflação e o risco Trump

Sucesso para o governo, em 2017, pode ser um crescimento econômico de míseros 2%, desempenho vergonhoso para um emergente e um dos piores da América do Sul. As agourentas bolas de cristal – do mercado e também de entidades oficiais – proporcionam pelo menos uma vantagem ao presidente Michel Temer e à sua equipe. Diante das projeções correntes, de expansão econômica na faixa de 0,5% a 1%, qualquer resultado melhor poderá ser saudado como vitória ou, no mínimo, como bem razoável. Se o número for 2%, haverá espaço até para alguma especulação: afinal, muita gente boa só previa um desempenho nesse nível a partir de 2019 ou 2020. Mas se o governo se acomodar, talvez nem o pobre cenário previsto para 2017 se concretize.

Expectativas também produzem consequências. Em dezembro, o medo do desemprego era maior do que um ano antes, de acordo com pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgada na sexta-feira. O índice chegou a 64,8 pontos. Em dezembro de 2015 estava em 61,2, mesmo nível observado em setembro de 2016. No fim do ano, também segundo a CNI, os empresários estavam mais pessimistas do que no terceiro trimestre. Continuavam, portanto, pouco dispostos a investir em máquinas, equipamentos e instalações. Pode-se ainda levantar mais um detalhe: depois de um Natal de vendas fracas, como será neste começo de ano o movimento de reposição de estoques?

A inflação em queda é um dos poucos dados conjunturais positivos neste momento. E será ainda mais positivo se justificar, para os diretores do Banco Central (BC), uma redução mais veloz dos juros básicos. O Índice Geral de Preços (IGP) produzido pela Fundação Getúlio Vargas aumentou 7,18% em 2016. É um número alto, mas a variação em 2015 havia chegado a 10,7%. O Índice de Preços ao Consumidor, um dos três componentes do IGP, subiu 6,18% nos últimos 12 meses. No ano anterior havia subido 10,53%, taxa muito parecida com a do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2015 o IPCA acumulou uma alta de 10,67%. O número final de 2016 deve ser conhecido em poucos dias. As projeções têm apontado um número próximo de 6,5%, limite da faixa de tolerância. Os mais otimistas têm estimado um resultado pouco menor.

Se um resultado razoável se confirmar, e se as perspectivas forem de um número próximo de 4,5% no fim de 2017, o Comitê de Política Monetária (Copom), integrado por dirigentes do BC, poderá continuar afrouxando talvez com maior firmeza as condições de crédito. Nesse caso, a reativação do consumo será favorecida pela combinação de dois fatores. Um deles será a maior oferta de financiamento a custos mais suportáveis. O outro, o declínio da inflação, com menor desgaste, portanto, do poder de compra das famílias. Se isso ocorrer, surgirá uma parte do impulso necessário à movimentação do comércio, das fábricas e dos serviços.

Mas ainda restará o desemprego como entrave à dinamização dos negócios. Mais de 12 milhões de trabalhadores procuravam alguma vaga no fim do ano. A desocupação havia chegado a 11,9% da população economicamente ativa, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, realizada em mais de 3.400 municípios. Com a inflação menor haverá menor corrosão da renda familiar, mas um enorme número de famílias, afetadas pelo desemprego de um ou mais membros, mal consegue, neste momento, algum dinheiro para sobreviver. Esse contingente continuará consumindo muito limitadamente ainda por bom tempo, mesmo com menor alta de preços e condições mais favoráveis de crédito.

A oferta de emprego demora a crescer quando a economia sai de uma recessão. Essa tendência tem sido geralmente confirmada pela experiência de muitos países. Na fase inicial, as empresas conseguem aumentar a produção sem novas contratações. Só depois de algum tempo, quando a recuperação começa a consolidar-se, as contratações são retomadas. Além de refletir com atraso a recuperação da atividade, o desemprego trava a dinamização da economia, dificultando a volta ao consumo.

Desde o primeiro corte, em outubro, a taxa básica de juros baixou de 14,25% para 13,75%. Já há quem aposte numa redução de 0,75 ponto porcentual na próxima reunião do Copom, mas essa aposta se baseia, por enquanto, só na evolução dos preços. Se a baixa ficar em 0,5 ponto, a mudança já será mais ampla que cada uma das anteriores. Mas as decisões seguintes dependerão de vários fatores ainda muito incertos.

Um deles é a evolução da política orçamentária e da agenda de reformas. A aprovação do limite de aumento do gasto federal foi, sem dúvida, um avanço importante, mas a economia ainda fraca poderá tornar o ajuste muito penoso. De toda forma, o governo parecer disposto a seguir o roteiro. Além disso, políticos de peso têm prometido apoiar a rápida tramitação da reforma da Previdência. Se o debate sobre a reforma tributária começar em breve, haverá boas condições internas para o afrouxamento da política de juros e, portanto, para uma recuperação mais veloz da economia.

Mas sobram incertezas consideráveis do lado externo. Com a rápida criação de empregos, o banco central americano tem razões muito fortes para continuar elevando os juros. Se a política do presidente Donald Trump favorecer maiores pressões inflacionárias, o aperto da política monetária poderá ser mais intenso, com efeitos sobre o câmbio e o movimento de capitais. Tudo isso entrará nas contas do Copom.

Se quiser mesmo garantir a recuperação a partir deste ano, o governo brasileiro terá de pensar em algo mais que a arrumação de suas contas. Pelo menos o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) parece pronto para entrar em jogo. Mas falta o governo desenhar mais claramente o jogo, incluído o programa para infraestrutura.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 09/01/2017.

RELACIONADOS

Deixe um comentário