Entre ouro e bananas

A importância da visão externa sobre nossa sociedade é inegável. Quando em viagens ao exterior, tenho o costume de conversar com o maior número de pessoas que posso – políticos, economistas, estudantes, etc. – para entender sua percepção sobre nosso país. Conversas básicas ou aprofundadas, a oportunidade é sempre interessante para identificar riscos e potenciais que, às vezes, como brasileiros, não conseguimos ver. Neste ano, tenho buscado novas opiniões desde o final de janeiro quando vim para a Europa participar de uma série de eventos na Polônia, Holanda e Alemanha. O que ouvi até agora foi extremamente interessante e, em alguns momentos, perturbador.

Em primeiro lugar, sem dúvidas, está certo otimismo, uma vez que não fomos tão afetados pela crise financeira como a maior parte das nações nesta região. Reconhecem que a economia brasileira atingiu um estágio de estabilidade impossível de se prever há algumas décadas. Veem com bons olhos o que conhecem sobre programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, e são otimistas sobre a crescente influência exercida por brasileiros em organismos da ONU.

A Copa do Mundo, que desperta ainda mais a curiosidade internacional e o desejo de conhecer nossas praias, é motivo de preocupação para a maioria daqueles que conversei

Fico impressionado e certamente orgulhoso ao ver como nossa imagem, como indivíduos, mudou ao passar dos anos: o carinho e a curiosidade pelo Brasil sempre foram grandes e assim permanecem, mas o brasileiro, por si, deixou de ser o turista folclórico e o imigrante indesejado para se tornar o pote de ouro das economias saturadas e recessivas.

Mas nem tudo são flores. A Copa do Mundo, que desperta ainda mais a curiosidade internacional e o desejo de conhecer nossas praias, é motivo de preocupação para a maioria daqueles que conversei. Temem, como nós, que nada esteja pronto para o evento ou que, como alguns periódicos internacionais reportaram, as condições sejam tão caóticas como aquelas encontradas nos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, na Rússia. A aproximação com a Rússia, alias, é inegável para muitos, não apenas pelo relacionamento de nossos governos nos Brics [grupo de países emergentes composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul]. Veem nossos políticos como uma versão mais moderada do folclórico e corrupto Vladmir Putin. Sentem-se inspirados pela história pessoal do ex-presidente Lula, mas receiam seu apego pelo poder; aprovam a escolha de uma mulher para presidente, mas temem sua próxima relação com Nicolás Maduro, Evo Moralles e Cristina Kirchner.

As conclusões a se tomar a partir desta narrativa são diversas. A minha é de que nosso país está travado na dicotomia sociedade-Estado, tendo em seu povo e seus empreendedores a força motriz para o desenvolvimento, enquanto o Estado e seus governantes, apesar de acertos consideráveis, teimam em agir como se ainda fôssemos a República das Bananas. Cabe a nós, do primeiro grupo, reduzir o peso que o segundo exerce sobre nossas costas.

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