A maior presença externa do Brasil começou a ser notada no final dos anos 1990, mas foi ao longo dos últimos oito anos que ganhou visibilidade. Por uma série de razões internas e externas, a projeção de nosso país no cenário internacional continuará a crescer em consequência do peso de sua economia e do nosso envolvimento nos principais temas da agenda global, como comércio, meio ambiente, clima e energia.

O ativismo da atual política externa procura um espaço de influência para bem além do contexto sul-americano, exigindo um esforço adicional da diplomacia brasileira para identificar o que de fato seja interesse nacional.

A busca de protagonismo para projetar o Brasil como um agente político global, como disse o presidente Lula, tentando ajudar a resolver conflitos por meio da negociação, pressupõe uma capacidade de avaliação e de coleta de informações que o serviço externo brasileiro está plenamente habilitado a desenvolver.

A intervenção do Brasil na crise entre os EUA e o Irã, relacionada com a suspeita de que o regime teocrático de Teerã estaria desenvolvendo um programa nuclear para fins militares, e não apenas para uso civil, foi positiva na medida em que propunha a negociação diplomática para superar as dificuldades e desconfianças existentes. A forma como se deu, entretanto, serviu para provar que temos um longo caminho de aprendizado ainda a percorrer antes de empunhar, de forma madura e com credibilidade, a bandeira de salvadores da paz mundial.

Poderíamos ter ensaiado nossos bons ofícios nos conflitos entre nossos vizinhos, tentando ajudar, por exemplo, a Argentina e o Uruguai a resolver suas diferenças no caso da instalação da fábrica de celulose na fronteira; ou as disputas entre a Colômbia e a Venezuela, que quase levaram os dois países a um conflito armado. Em ambas as questões o Brasil optou por se omitir, preferindo iniciar sua ação pacificadora no conflito entre palestinos e israelenses, no Oriente Médio, e na disputa entre EUA e Irã. Essas decisões põem em causa o julgamento dos formuladores da política externa quanto à identificação do que deveria ser de fato nosso interesse e à capacidade de avaliação objetiva das informações coligidas pela eficiente rede do Itamaraty.

Sem entrar no mérito da discussão da crise em si mesma, e seja qual for seu desdobramento nas próximas semanas, ficou evidente a série de erros de avaliação por parte do governo brasileiro quando tomou a decisão de negociar o acordo com o Irã, que Teerã ameaça romper caso as sanções sejam aprovadas. Superestimou-se a disposição da China e da Rússia, apesar dos seus interesses estratégicos e comerciais no Irã, de enfrentar os EUA para apoiar os esforços do Brasil. A percepção quanto ao estímulo indireto do presidente Barack Obama a Lula para negociar com Teerã e à determinação americana de levar adiante o projeto de resolução com sanções no Conselho de Segurança da ONU também foi mal dimensionada. Nossa diplomacia ignorou as pressões internas e externas sobre o governo Obama que forçaram o abandono das negociações com o Irã e a previsível reação de Washington contra a intromissão de novos atores em assuntos que, de forma monopolística, considera de sua exclusiva responsabilidade. O presidente Lula, apropriadamente, perguntou onde isso estava escrito, mas as duras palavras da Secretaria de Estado dos EUA, no dia seguinte ao acordo de Teerã, sinalizaram onde estava o poder.

Por outro lado, não houve uma adequada avaliação dos prejuízos que o apoio ao Irã poderia trazer para o Brasil. Ao tentar evitar as sanções e se inserir numa questão tão sensível e que envolve a própria segurança nacional dos EUA, atrás de ganhos incertos, o Brasil parece ter feito pouco-caso das suas perdas. Foi minimizado o risco de que as relações com os EUA pudessem ficar afetadas pela iniciativa brasileira, prevalecendo a percepção do PT de que os EUA estão em decadência e que outros centros de poder estão emergindo e transformando o mundo em multipolar. Embora isso seja verdade para as decisões nas áreas econômica e política, em que não há mais possibilidade de imposições dos países desenvolvidos sobre os países emergentes, a avaliação foi equivocada ao se julgar que o mesmo valeria também para as questões estratégicas e de defesa, nas quais os EUA continuam como a única superpotência, sem declínio ou perda de poder.

Mais grave foi o presidente Lula afirmar que sabia ser esse passo uma aposta grande e que não tinha nada a ganhar. Segundo se noticiou, um alto funcionário teria também declarado que os entendimentos com o Irã poderiam comprometer a intenção do Brasil de conquistar um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU e poderiam ser explorados pela oposição como aventura ou fracasso. Mesmo assim, valeria a pena.

À luz dessas declarações, não ficam claros os critérios do atual governo para a identificação do interesse nacional. O ingresso do Brasil como membro permanente no Conselho de Segurança é uma das maiores prioridades da atual política externa. Se nada tínhamos a ganhar, por que ameaçar a chance de sentar-se de forma permanente no diretório que zela pela paz e pela segurança internacionais? Vale a pena despertar suspeitas até sobre a natureza de nosso programa nuclear, como já começa a ocorrer? O Brasil, nos próximos anos, por sua crescente projeção externa e pela importância de sua voz, certamente poderá vir a exercer o papel de negociador no encaminhamento de temas globais.

É árduo o caminho para assumir esse patamar. O aprendizado, que pressupõe erros e acertos, dependerá sempre de avaliações objetivas, fundadas na clareza da definição de nossos interesses permanentes, e não de prioridades partidárias dos governos da vez.

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