Escolhas de Portugal

Em um rasgo de sinceridade e de profundo realismo, o governo de Portugal admite que só tem dinheiro para pagar dívidas até o fim de maio. O país precisa de € 5 bilhões para quitar uma dívida que vence em junho. O primeiro-ministro, José Sócrates, propôs uma reunião emergencial com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para negociar um empréstimo.

O jornal português Público destaca que o país “precisa de medidas ainda mais duras” para reduzir o déficit nas contas públicas. Caso contrário, “a economia portuguesa será a pior da União Europeia em 2016”. Triste prognóstico para um país com tantas potencialidades.

Em 2010, o déficit público do país foi 8,6%, ultrapassando a meta de 7,3%. A dívida pública está hoje em 92,4% do PIB. A situação de Portugal é inacreditável. Com forte vocação turística e cultural, sem graves problemas sociais e tendo o apoio da Comunidade Europeia, poderia ter construído as bases de uma economia sólida e independente.

Poderia, ainda, ter aprofundado os laços econômicos com o Brasil, de forma a estar se beneficiando do ciclo virtuoso que se instalou no país. Tampouco buscou se transformar em potência tecnológica, com aplicação de recursos maciços em pesquisa e desenvolvimento.

O medíocre desempenho econômico português não é fato recente.

Desde 2001, Portugal tem crescido pouco mais de 1% ao ano. Crescimento muito inferior, no mesmo período, ao dos países que se equiparam com Portugal na União Europeia.

Outros indicadores são igualmente patéticos. Portugal é pouco competitivo, pois é travado e controlado pela burocracia e pelo corporativismo do funcionalismo, pelas regras trabalhistas, pela complexidade do sistema tributário e pela falta de visão estratégica.

Muitos dos problemas de Portugal se parecem com os do Brasil. Só que há uma grande diferença: aqui há um gigantesco potencial no mercado interno cuja lucratividade paga toda e qualquer ineficiência de nosso sistema econômico.

O mais grave é que a crise portuguesa resulta de escolhas políticas erradas, e não de problemas vindos de fora. Portugal é vítima também da incapacidade de planejar um futuro melhor a partir de suas potencialidades.

Ao invés de olhar para as políticas econômicas e fiscais de países do Báltico, que estimulam o investimento privado, Portugal se mantém amarrado pela burocracia e pela imensa vontade de intervir na economia sem os devidos instrumentos e sem capacidade financeira para tal.

Mais do que emprestar dinheiro para Portugal, credores e países amigos deveriam encorajar o país a editar políticas desburocratizantes que promovam o investimento e a livre-iniciativa.

No mundo de hoje, Portugal possui, pelo menos, quatro aspectos extraordinários que podem resultar em grandes oportunidades: o potencial turístico, a produção de cultura, a educação do povo e a ausência de graves problemas sociais. Ou seja, tem tudo para ter um futuro brilhante à altura das melhores expectativas e tradições do país.

Fonte: Brasil Econômico, 19/04/2011

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