Esforços imoderados por efeitos moderados

Paulo Guedes

O que dirão os futuros historiadores quando examinarem retrospectivamente as duas últimas décadas, desembocando na grande crise contemporânea? Dirão, como boa parte dos economistas, que se tratou de um período de “Grande Moderação”? Que foi interrompido por um raro e imprevisível evento, um “cisne negro”, um “crash” imobiliário que ameaçou depois engolir todo o sistema bancário? Ou na verdade dirão que essa foi a “Era dos Excessos”, cuja característica marcante foi exatamente a enorme falta de moderação?

Falta de moderação nos financiamentos imobiliários. Falta de moderação no grau de alavancagem do sistema financeiro. Falta de moderação na concessão de créditos a governos nacionais, após a criação do euro, sem a devida avaliação quanto aos fundamentos fiscais. Falta de moderação nos déficits fiscais e no endividamento público como resultado de promessas demagógicas e irrealistas da obsoleta plataforma social-democrata. Falta de moderação também no uso dos instrumentos de política econômica para a consecução das metas estabelecidas.

Aqui se torna compreensível o paradoxo de os economistas chamarem de “Grande Moderação” justamente essas duas décadas em que perdiam o juízo políticos, financistas, famílias, embriagando-se todos com o endividamento excessivo. Os economistas celebravam como “Grande Moderação” seu sucesso no uso dos instrumentos de política monetária e fiscal em obter taxas altas e estáveis de crescimento em meio a taxas baixas e estáveis de inflação. Um mundo livre das grandes flutuações cíclicas, dos booms e das recessões. Mas poucos perceberam que a redução na amplitude dos ciclos estava sendo obtida por doses cada vez mais elevadas de liquidez. Dinheiro barato para créditos temerários. Aumentavam a frequência e a amplitude das oscilações registradas nos instrumentos monetários e creditícios a cada tentativa de abafar as flutuações nas metas de crescimento e inflação. Tornavam-se cada vez mais instáveis os fundamentos quanto mais garantias anticíclicas ofereciam os governos. A percepção de risco era anestesiada enquanto subia exponencialmente o risco sistêmico. Os bancos centrais injetaram nas veias bancárias mais de dois trilhões de dólares (uma selvagem oscilação nos instrumentos), na desesperada tentativa de manter algum crescimento (“moderando” o ritmo de desaceleração econômica). Cada vez mais drogas, e as dores continuam.

Fonte: O Globo, 05/03/2012

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