O Globo, 15 de janeiro de 2007

A função do sistema de preços em economias de mercado é a transmissão de sinais para a coordenação de esforços produtivos. Embora tudo afete tudo num sistema de equilíbrio geral, consideremos didaticamente compartimentos estanques determinando os preços críticos: taxas de juro, salários, taxas de câmbio e preços de bens e serviços. As taxas de juro informam as condições de liquidez nos mercados de crédito e também os termos de troca entre o presente e o futuro. “O valor do amanhã” (2005), no dizer poético de Eduardo Giannetti. Resultam do “embate entre a gratificação imediata dos desejos do sistema límbico (consumo) e o calculismo prudente do córtex pré-frontal (poupança)”. Os salários das diversas categorias profissionais informam as condições de oferta e demanda nos múltiplos mercados de trabalho. E as taxas de câmbio informam as condições existentes nos mercados de divisas, resumindo em um só preço dimensões tão distintas quanto as diferenças entre: taxas de crescimento e taxas de juro internas e externas, preços dos produtos que exportamos e que importamos, níveis de salário nacionais e internacionais. Temos ainda dois subsistemas. O primeiro é o nível absoluto dos preços de bens e serviços, fenômeno essencialmente monetário determinado pelo regime de metas de inflação. Com a inflação anual abaixo do centro da meta em 2006, pela primeira vez desde a implantação do regime, o “centro” não é mais apenas o “piso”. Tentativas incompletas tornaram-se uma coordenação consistente das expectativas de inflação pelo Banco Central. Com as expectativas de uma inflação baixa e estável, tornam-se relevantes os sinais de preços relativos do segundo subsistema: a enorme variedade dos mercados de bens e serviços específicos. Esses sinais estavam perdidos no nevoeiro da inflação, dificultando a eficiente mobilização de recursos entre os setores da economia. Os empreendedores arregimentam uma combinação experimental de recursos econômicos (capital, trabalho, tecnologia, terra, recursos naturais), garantindo uma renda contratual a cada um deles. Assumem o risco de decifrar os sinais emitidos por essa constelação de preços críticos, principalmente os relativos a seu próprio setor, buscando o lucro como recompensa. Imagine agora esse complexo mecanismo bombardeado por grandes choques sistêmicos. Primeiro, um exótico experimento da social-democracia brasileira: em vez da reforma do Estado, a formidável expansão dos gastos públicos de 20% para 40% do PIB em pleno combate à inflação. Empurrou os juros para cima, o câmbio para baixo, derrubou os investimentos e o emprego. Segundo, um clássico choque de exclusão do repertório social-democrata: a elevação dos encargos sociais e trabalhistas para 100% do salário, tornando o custo do trabalhador o dobro do salário pago. Resulta em 50 milhões de trabalhadores sem carteira assinada e um colossal rombo na Previdência Social. Terceiro, o mergulho de 3 bilhões de eurasianos nos mercados globais, que nos ameaça de desindustrialização. Aos que sobreviverem aos três choques, o governo reserva o quarto cavaleiro do apocalipse, o exterminador do presente: o excesso de impostos. Não surpreende que o empreendedor seja uma espécie em extinção.

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