Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Esperança na Casa Rosada

Os resultados das eleições de domingo passado na Argentina desmentiram todas as pesquisas que indicavam que o candidato Daniel Scioli, apoiado pela presidente Cristina Kirchner, venceria no primeiro turno. E abriram a possibilidade de o país, que foi uma espécie de farol da América Latina, sair da degradação econômica e política em que está mergulhado há mais de meio século, recuperando o dinamismo e a criatividade que fizeram dele, no passado, uma nação do primeiro mundo.

A condição é que no segundo turno, em 22 de novembro, vença Mauricio Macri e o eleitorado confirme o repúdio frontal ao kirchnerismo. O movimento é uma das mais demagógicas e corruptas ramificações da quimera indecifrável chamada peronismo, um sistema de poder similar ao antigo PRI mexicano, no qual se inserem todas as variantes do espectro ideológico, da extrema direita à extrema esquerda, passando por todas as nuances cabíveis.

Macri representa uma novidade, não tanto pelas ideias modernas e realistas do seu programa, sua nítida vocação democrática, ou a sólida equipe de planejamento de governo que ele reuniu, mas pelo fato de que, pela primeira vez, o eleitorado argentino tem hoje a oportunidade de votar por uma alternativa real e verdadeira ao peronismo, que levou o país mais culto e com maiores recursos da América Latina ao empobrecimento e ao populismo mais caótico e atrasado.

Não será fácil, é claro, mas é possível. A vitória, de Maria Eugenia Vidal, uma candidata de inequívocas credenciais liberais, nas eleições para o governo da província de Buenos Aires, tradicional fortaleza peronista, é o sinal claro do desencanto de um vasto setor popular com as políticas que, sob a aparência de medidas de justiça social, antiamericanismo e pró-chavismo, fizeram disparar a inflação, reduziram de modo espetacular os investimentos estrangeiros e colocaram a Argentina muito próxima da recessão.

Riscos– O sistema representado por Cristina Kirchner vai se defender com unhas e dentes, como é natural, e já há indícios de que poderá suceder o que se verificou no domingo passado, quando o governo permaneceu calado, sem divulgar os resultados mais de seis horas após o escrutínio, tendo prometido que o tornaria público com rapidez. A possibilidade de fraude está sempre presente e a única maneira de a aliança de partidos que apoia Macri evitá-la será garantir a presença de observadores em todas as mesas eleitorais e – caso ocorra – denunciar sua manipulação.

Dois fatos notáveis das eleições do 25 de outubro são esses: Macri aumentou seu capital eleitoral em cerca de um milhão e setecentos mil votos e o número de eleitores aumentou de maneira espetacular, de 72% dos inscritos na eleição passada para cerca de mais de 80% nesta. A conclusão é evidente: um setor importante do eleitorado, até agora indiferente ou resignado com o status quo, desta vez, renunciando ao conformismo, mobilizou-se e foi às urnas, convencido de que seu voto pode mudar as coisas. E, de fato, foi o que ocorreu. E o fez discretamente, sem tornar público de antemão, por prudência ou temor diante de possíveis represálias. Daí o erro crasso de pesquisas que anunciavam um triunfo absoluto de Scioli, o candidato do governo, no primeiro turno.

Mas em 22 de novembro não ocorrerá o mesmo: o poder kirchnerista sabe dos riscos que corre com um triunfo da oposição e utilizará todos os recursos a seu alcance, que são muitos – intimidação, suborno, falsas promessas e fraude – para evitar uma derrota.

É preciso esperar que o setor mais bem intencionado e democrático dos peronistas dissidentes, que contribuíram de maneira decisiva para castigar o kirchnerismo, não se deixe impressionar com chamados à unidade partidária que não existe há muito tempo e não desperdice esta oportunidade de corrigir uma trajetória política que fez a Argentina regredir para um subdesenvolvimento terceiro-mundista que não merece.

O empobrecimento sistemático do país multiplicou a desigualdade e as fraturas sociais

Herança– Não o merece diante da variedade e quantidade de recursos do seu solo, um dos mais privilegiados do mundo, a forte integração da sua sociedade e o seu alto nível cultural. Quando era menino, meus amigos do bairro de Miraflores, em Lima, sonhavam em se formar profissionais não nos Estados Unidos ou Europa, mas na Argentina.

O país na época ainda possuía um sistema educacional exemplar, havia erradicado o analfabetismo – uma das primeiras nações a consegui-lo – e o mundo inteiro copiava seu modelo. A boa literatura e os filmes mais populares em minha infância na Bolívia e minha adolescência no Peru vinham de editoras e produtores argentinos e as companhias de teatro portenhas percorriam todo o continente nos colocando a par das obras de Camus, Sartre, Tennessee Williams, Arthur Miller, Valle Inclán, etc.

É verdade que nem os países mais cultos estão imunes às ideologias populistas e totalitárias, como demonstram os casos da Alemanha e da Itália. Mas o fenômeno do peronismo é, pelo menos na minha opinião, mais misterioso ainda do que o do povo alemão aceitando o nazismo e o italiano, o fascismo.

Sem dúvida, a antiga democracia argentina – a da república oligárquica – tinha seus defeitos. Era elitista e foram necessárias reformas que ampliassem as oportunidades e o acesso à riqueza para os setores operários e camponeses. Mas o peronismo não realizou essas reformas, porque sua política de intervenção estatal paralisou o dinamismo da vida econômica e introduziu os privilégios e sinecuras partidárias ao mesmo tempo que o gigantismo estatal.

O empobrecimento sistemático do país multiplicou a desigualdade e as fraturas sociais. O surpreendente é a fidelidade de uma enorme massa de argentinos a um sistema que, obviamente, só favoreceu uma nomenclatura política e seus aliados do setor econômico, uma pequena oligarquia latifundiária e privilegiada. Os golpes e as ditaduras militares contribuíram, sem dúvida, para manter viva a ilusão peronista.

Lembro-me da minha surpresa a primeira vez que fui à Argentina, em meados dos anos 60, e descobri que em Buenos Aires havia mais teatros do que em Paris, onde vivia. Desde então tenho acompanhado sempre, com fascinação e espanto, os avatares de um país que parecia empenhado em rechaçar todas as vozes sensatas que queriam reformá-lo e que, em sua vida política, não cessava de persistir no erro.

Talvez por isto comemorei no domingo, dia 25, os resultados deste primeiro turno com um entusiasmo juvenil. E faço votos que em 22 de novembro uma maioria inequívoca de eleitores mostre a mesma lucidez e coragem, levando ao poder aquele que representa a verdadeira mudança em liberdade.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 1º/11/2015

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