Esperanças renovadas

Zeina Latif (nova)

A coisa mais fácil, hoje, é ser pessimista em relação ao cenário econômico para este ano. Do lado estrutural, a história não é boa. A economia exibe queda de produtividade, que é justamente o motor do crescimento econômico de longo prazo. A ausência de reformas estruturais e o excessivo intervencionismo estatal explicam esse quadro. Fatores conjunturais são igualmente importantes. A economia sofre as consequências de uma gestão macroeconômica equivocada, marcada por estímulos excessivos, que geram inflação alta e prejudicam o investimento privado. A indústria sofre com as margens deprimidas, e os consumidores, excessivamente endividados, ficam mais conservadores. A situação financeira das empresas se deteriora, com repercussões nas decisões de investimento e no mercado de trabalho – já com elevação na taxa de desemprego. Soma-se a isso o efeito da alta da taxa de juros, o ajuste de tarifas públicas e o enfraquecimento da moeda. Dúvidas sobre o preço de energia e sobre o tamanho da crise hídrica em São Paulo tampouco ajudam.

Como se não bastasse, a economia terá de digerir as consequências da Operação Lava Jato, com impacto significativo na maior empresa do país, a Petrobras, e de seus fornecedores. O risco de contração do PIB é concreto. O hiato em relação ao mundo abre ainda mais, prejudicando a capacidade do país de atrair investimento estrangeiro.

Quanto mais rápido for o ajuste, mais veloz será o recuo da inflação, abrindo espaço para recuperação da atividade econômica

O governo está pronto para responder a esses desafios? Há constrangimentos políticos e ideológicos. Como ter legitimidade para reorientar a política econômica se este não era o compromisso da campanha? Mas isso não significa um governo inerte. Há boas notícias, e o destaque fica para a indicação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. Profissional experiente, qualificado e respeitado. Sua indicação diz algo sobre a intenção do governo de rever suas estratégias. Com senso de urgência, o ministro tem feito importantes sinalizações sobre os princípios gerais de sua gestão: disciplina fiscal, zelo na gestão dos recursos públicos, horizontalidade, transparência.

Há razões para acreditar que a política fiscal colapsou. Expansões fiscais, hoje, mais atrapalham que ajudam o crescimento. É necessário um corte de excessos e a remoção de distorções, passando por uma agenda de longo prazo de reavaliação da intervenção do Estado na economia. O governo gasta mal e falha na promoção do crescimento de longo prazo e qualidade de vida. O gigantismo estatal demanda o fortalecimento de instituições estatais, de forma a garantir transparência, governança e garantia de avaliação adequada das políticas públicas. É bom para a economia e para a democracia.

Quanto mais rápido for o ajuste, mais veloz será o recuo da inflação, abrindo espaço para recuperação da atividade econômica. Haverá condições políticas para isso? Essa resposta dependerá do quanto a atividade econômica será prejudicada pelos ventos desfavoráveis – que, juntos, podem formar um furacão. Uma desorganização profunda da economia pode tornar o ajuste fiscal muito mais difícil. A correção da taxa de câmbio também poderá trazer boas notícias adiante. O real mais fraco deve proporcionar ganhos de competitividade para a indústria, ajudando a tirar o país da letargia. No entanto, será necessário austeridade na política econômica, com queda da inflação e salários reais crescendo em linha com os ganhos de produtividade. Sem isso, colheremos apenas os efeitos recessivos do câmbio. Os desafios são enormes. A boa notícia é que temos chances de superá-los.

Fonte: Revista Amanhã, 10/4/2015

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