Está difícil frear a demanda

A economia vai bem, a inflação assusta e a política monetária parece ter produzido pouco resultado até agora. A atividade continua forte, o salário cresce e o crédito se expande. A indústria paulista faturou no mês passado 5,3% mais que em janeiro e 13,8% mais que um ano antes, descontada a inflação. O faturamento real no primeiro bimestre foi 10,7% superior ao de janeiro e fevereiro de 2010. Os trabalhadores participaram da festa. Em fevereiro, o bolo do salário real foi 3,4% maior que em janeiro e 3,5% superior ao de igual mês do ano passado. No bimestre, o bolo salarial superou por 2,4% o de um ano antes. Detalhe importante: os dados de janeiro foram revistos para mais. A aceleração em fevereiro, portanto, foi maior do que teria sido se os números preliminares do começo do ano estivessem certos. O novo levantamento foi divulgado ontem pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Também ontem saíram as informações sobre a expansão da moeda e dos empréstimos até fevereiro. Segundo o Banco Central (BC), o estoque total de crédito aumentou 1,3% no mês e 21% em 12 meses. Em fevereiro de 2010, o crédito correspondia a 44,1% do PIB. Um ano depois, essa relação chegou a 46,5%. O problema no caso brasileiro, como têm apontado vários analistas, não é a proporção entre o crédito e o valor da produção, mas a velocidade da mudança. Em 2003, no começo do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a relação era próxima de 25%.

As carteiras de crédito pessoal continuaram em expansão, com aumento de 1,2% num mês e 24,6% em 12 meses. Os financiamentos para compra de veículos atingiram o saldo de R$ 146,8 bilhões em fevereiro, com aumento de 2,7% no mês e 49,8% ao longo de um ano. O crescimento do crédito habitacional foi muito parecido com o dos empréstimos para compra de veículos, com variação de 2,7% em fevereiro e 50,9% em 12 meses.

Em março, o Índice de Confiança do Consumidor medido pela Fundação Getúlio Vargas foi 2% mais baixo que no mês anterior. Mas a mudança resultou principalmente de um menor otimismo em relação aos seis meses seguintes. A avaliação do momento atual continuou muito boa. Cresceu de 34,1% para 34,7% o grupo de consumidores com opinião positiva sobre a situação econômica de sua cidade. A parcela dos pessimistas diminuiu de 18,1% para 17,3%. A sondagem é realizada com “mais de 2 mil domicílios” – o número exato não foi divulgado – em sete das maiores capitais de Estados.

A redução do otimismo em relação aos próximos seis meses, no entanto, foi moderada: as pessoas com expectativa de melhora diminuíram de 30,9% para 29,2%. A parcela dos pessimistas cresceu mais sensivelmente, de 17% para 21,3%. Os demais não apostaram em alteração. A mudança geral está longe de ser uma onda de depressão.

As empresas também continuam buscando empréstimos com algum entusiasmo. O saldo do crédito à indústria aumentou 1,3% em fevereiro. A variação foi de 1,5% no caso do comércio e de 1,5% no de “outros serviços”, segundo o relatório do BC. Parte da demanda por dinheiro foi desviada, no entanto, para o exterior. Isso contribui para ampliar o ingresso de dólares e forçar a valorização do real.

Empresários não param de se queixar do desajuste cambial, muito ruim para quem tem de competir com produtores estrangeiros, mas também não resistem à tentação de captar um empréstimo mais barato no mercado externo. Neste ano, até 25 de março, operações com prazos inferiores a 360 dias totalizaram US$ 26,6 bilhões. Bancos e empresas têm participado desse movimento. O governo já confirmou a intenção de cobrar 6% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para desestimular essas operações.

Diante dos números do crédito e dos salários, é difícil negar o papel da demanda como fator inflacionário. Boa parte das pressões é explicável pelo aumento das cotações internacionais das commodities, mas isso não invalida a importância das condições do mercado interno. Falta ver quanto aperto adicional o BC e o Ministério da Fazenda estarão dispostos a promover para esfriar a economia e conter a alta de preços.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 30/03/2011

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