A eterna ilusão da desvalorização cambial

No universo econômico, algumas crenças parecem mágicas por tentarem resolver problemas complexos apresentando soluções simples. Um exemplo disso é o câmbio, defendido por muitos como o caminho primordial para a retomada da atividade industrial e aumento da competitividade no comércio mundial. O recente manifesto Brasil-Nação divulgado por um conjunto de economistas com destaque para a figura de Bresser-Pereira chama atenção pelo emprego dessa mágica solução.

É um notório saber econômico que moedas desvalorizadas trazem impactos positivos sobre a balança de pagamentos, favorecendo exportações em detrimento das importações. Contudo, a desvalorização cambial como ferramenta primordial do desenvolvimento econômico é fraca, na medida em que esconde nuances do sistema produtivo e esbarra na grave crise fiscal da atualidade.

A literatura econômica disponível relata que a correlação de desenvolvimento econômico com depreciação é algo restrito a poucos exemplos, sendo que esses países possuem elevado grau de poupança, diferentemente do Brasil.

Desvalorizar a moeda tem fortes impactos na inflação. O Banco Central, para promover desvalorização, precisa comprar os dólares dos exportadores. Isso só poderá ser feito com emissão monetária (o que seria uma piada) ou com a emissão de dívidas públicas. Em uma situação em que a tendência do crescimento da dívida está explosiva e a poupança doméstica é pífia, só traria desequilíbrios macroeconômicos e inflação.

A apreciação da taxa de câmbio penaliza as indústrias que operam com tecnologias já difundidas e de fácil acesso, sem contar os níveis de eficiência desfavoráveis quando comparado aos padrões internacionais. A desvalorização realmente pode favorecer tais setores, dando um fôlego para esses setores; contudo, é uma alternativa que mascara, além de incentivar o principal problema industrial, que é o precário desempenho inovador da indústria brasileira.

O arranjo institucional do Estado brasileiro favorece a criação de mecanismos políticos para a obtenção de privilégios em detrimento da inovação. Não é de se estranhar que a industrialização brasileira tenha emergido sobre a tutela do governo, e os vícios protecionistas (subsídios e créditos, proteção contra a concorrência, reserva de mercado…) se mantenham até hoje. A baixa produtividade observada desde meados da década de 80 não será compensada por um câmbio artificialmente desvalorizado.

A solução da desvalorização é uma ingenuidade, embora possa funcionar como um paliativo a curto prazo. Os beneficiados serão apenas os setores que não inovam, penalizando não só os consumidores como delegando pressões inflacionárias. O único caminho é a busca por eficiência e o desenvolvimento de mecanismos que aumentem a produtividade, o resto é apenas uma ilusão.

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