Se eu digo isso o jornal me despede; se um comerciante tem essa atitude, ele vai à falência; se um pai de santo, ministro, rabino ou sacerdote repete o mote, ele faz suas orações sozinho e não salva ninguém; se um professor adota esse credo, ele não merece dar cursos; do mesmo modo que um médico, um juiz, um policial, um engenheiro e um advogado deixariam morrer os doentes, perderiam o senso de justiça, do limite e da eficiência. Seria o fim deste nosso mundo chamado de moderno, e olha que eu estou apenas mencionando as profissões mais estabelecidas.

Quando um membro do Parlamento, um servidor público importantíssimo e privilegiado porque representa uma massa de desejos e esperanças de uma região do país diz que está “se lixando para a opinião pública”, como fez o deputado federal Sérgio Moraes, do PTB do Rio Grande do Sul, ele não fala apenas uma triste verdade; ele revela a nossa ignorância do que é viver numa sociedade democrática e liberal. O credo do “estou me lixando” não é privilégio do deputado gaúcho, mas da hierarquia existente entre os que têm poder e nós, as pessoas comuns. Ela foi dita por Sérgio Moraes, mas está implantada no imenso vazio existente entre as formalidades – as tais instituições e leis, que vão resolver tudo e são feitas por ideologias, governos e decretos – e as crenças e práticas antigas que ainda comandam com força o nosso sistema. A questão não é a de denunciar a clara arrogância do parlamentar, o problema é tomá-la como um claro sintoma da total separação entre o lado de lá e o de cá do balcão. Pois quando parlamentares se lixam para a opinião pública eles perdem a consciência de que foram por ela eleitos!

Como um médico pode se lixar para um doente, um professor para um aluno, um vendedor para seu cliente e um deputado para a opinião pública se, em todos os casos, esses são papéis sociais complementares que existem em total interdependência, já que ser médico implica enfermos, ensinar supõe um aprender, e não há venda sem compra; tal como ser um representante do povo aciona automaticamente a ideia de um representado: o próprio povo. Esse representado cujo espírito ou índole (ou “vontade geral” como disse Rousseau) forma o que nós, democratas e modernos, chamamos entre outras coisas “opinião pública”, esse quarto ou quinto poder em qualquer democracia liberal; esse sistema nebuloso que tem todos os defeitos mas que, quando opera com liberdade, se caracteriza pela constante renovação de seus valores. Esses valores inatingíveis como liberdade, igualdade e fraternidade. Essas causas perdidas em perpétua busca de encarnação institucional e política.

Não se precisa ir a Locke, a Rousseau ou a Weber para descobrir que a legitimidade se faz justamente na relação que o sistema representativo moderno esconde e revela. Revela-se no processo eleitoral quando os candidatos se dizem pais, protetores ou representantes do povo, o qual, num mercado dos candidatos, escolhe os de sua preferência. E esconde-se nas rotinas parlamentares nas quais esse laço deve ser renovado e honrado na busca de leis, causas e projetos que façam avançar a vida dos representados. A menos que se reinterprete, como sempre fazemos no Brasil, o liberalismo pelo viés aristocrático mal resolvido, vigente na sociedade, e se admita que a investidura num cargo público conceda ao investido a propriedade deste cargo como ocorre nas aristocracias. Nelas, a legitimidade está apenas do lado da nobreza que, por direito divino, é definida como superior à plebe, mas cuja obrigação seria dela “cuidar”, como tem redescoberto o nosso populismo. A nobreza, porém, perde legitimidade quando o laço de honra, de obrigação e de honestidade que deve marcar os seus laços com a plebe não é levado a sério. Ou seja, quando ela faz como o deputado e se lixa para a opinião pública. Maria Antonieta e os Luíses não se lixavam, mas davam pão e circo para o povo. Sabiam que, entre governantes e a opinião pública deveria haver algo mais do que descaso, insulamento político e arrogância aristocrática.

Nas democracias, se o laço entre representantes e representados torna-se tênue, instala-se um processo de ilegitimidade. Ora, esse lixar-se para a opinião pública revela o tamanho da crise de legitimidade que decorre da aristocratização dos governantes, ao lado de uma sociedade redemocratizada pela livre iniciativa, por um mercado cheio de energia e por uma moeda estável: um único dinheiro que vale a mesma coisa para todos. Num Brasil onde todos pagam uma enormidade de impostos e, com eles, os salários de todos os governantes, vai ficando cada vez mais intolerável ter câmara, parlamentos, ministérios e executivos aristocratizados com o meu, o seu, o nosso dinheiro. Mais: vai ficando impossível verificar que é a sociedade que trabalha para o Estado e não o justo oposto.

É duro observar uma súcia majoritariamente incompetente (com alguns criminosos em seu meio) viver como nobres e milionários, tendo, além de tudo, o desplante de declarar que nós, a opinião pública, nada temos com eles.

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