Sábado, 10 de dezembro de 2016
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EUA, potência reemergente

Parece estar chegando ao fim um debate que durou décadas por parte dos analistas internacionais -o do suposto declínio relativo dos EUA como potência global.

No final dos anos 1980, Paul Kennedy vislumbrava em seu livro “Ascensão e Queda das Grandes Potências” os EUA severamente questionados em seu papel como líderes da economia global por um Japão pujante.

Os EUA vêm liderando a configuração dessa nova geometria de acordos plurilaterais de comércio

Vinham das megacorporações japonesas referências como o método de produção “just in time” ou a “Teoria Z”, que rechearam os manuais de MBAs em todo o mundo.

Contemporaneamente, o principal desafio geoeconômico é apresentado pela China. Se esta crescer a taxas superiores a 6% ao ano nos próximos dez anos, a expectativa é que ultrapasse os EUA em termos de PIB nominal medido em dólares em 2025.

O decréscimo proporcional da fatia do produto global representada pelos EUA também parecia reforçar a ideia do declínio. Se ao final da Segunda Guerra Mundial os EUA detinham metade do PIB mundial, hoje, mesmo com um produto de US$ 18 bilhões, equivalem a menos de 25% da economia do globo.

A vulnerabilidade no 11 de Setembro e o malogro na Guerra ao Terror, seja no teatro de operações do Afeganistão, seja no do Iraque, também sinalizariam, da ótica geopolítica, a derrocada dos EUA.

Atordoados sobre como responder a ameaças não estatais (Al Qaeda, Estado Islâmico etc.) ou incoerentes em sua defesa da liberalização comercial via plataformas multilaterais como a OMC (Organização Mundial do Comércio), os EUA ofereciam de fato muitas matérias-primas aos “declinistas”.

Essa tendência, no entanto, inverteu-se. Os EUA parecem ter recobrado seu enorme peso específico nos tabuleiros geopolíticos. Tal inflexão, é verdade, acompanha-se de inúmeras vozes dentro dos EUA que advogam um novo “isolacionismo” e a retração do papel dos EUA como potência “indispensável” em qualquer grande tema da agenda internacional.

A volta dos EUA ao centro do palco é bem clara. Na Ásia, lançam inúmeros gestos de simpatia aos indianos. As empresas norte-americanas são as maiores participantes do programa “Make in India”, capitaneado pelo primeiro-ministro Narendra Modi.

Na Europa, são a força a empurrar Bruxelas a um papel mais assertivo da União Europeia na porção oriental do Velho Continente. E, com os europeus, mantêm severas sanções contra a Rússia de Putin em decorrência da anexação da Crimeia no ano passado.

Washington prepara novas iniciativas para a África e a América Latina, consciente de que perdeu muito espaço para a influência chinesa nos últimos 15 anos.

O que mais impressiona nessa nova ascensão dos EUA, no entanto, é seu caráter como “mercado reemergente”. As Bolsas norte-americanas já recuperaram (e ultrapassaram) os níveis pré-crise dos créditos subprime de 2008.

A produtividade do trabalhador nos EUA, a eficiência na alocação de capital, o uso intensivo de tecnologia e a perspectiva de acesso ampliado aos mercados internacionais têm levado a uma dramática redução de distâncias dos custos de produção nos EUA em comparação com outros países.

Um recente relatório do Instituto de Finanças e Direito de Xangai (SIFL, na sigla em inglês) estima que hoje a diferença nos custos de produzir nos EUA ou na China não chega a 5%. E, nessa linha, cada vez mais centros de estudos chineses questionam, com certo alarme, se os EUA não estariam a caminho de tornar-se mais uma vez a “fábrica do mundo”.

E, claro, os EUA vêm liderando a configuração dessa nova geometria de acordos plurilaterais de comércio e investimento de que são exemplos a Parceria Transpacífica e o tratado EUA-Europa, ainda em negociação.

A liderança energética norte-americana (graças à extração do petróleo e gás de xisto) e sua imensa capacidade em revolucionar setores econômicos em virtude de tecnologias como a impressão em 3D turbinam a volta dos EUA ao epicentro das relações internacionais.

Essa renovada posição de destaque dos EUA no cenário global dos próximos 30 anos está a reclamar uma completa revisão da estratégia daqueles países que apostaram na tese declinista. E, infelizmente, entre esses inaptos estrategistas está o Brasil.

Fonte: Folha de S.Paulo, 28/10/2015.

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