O governo e o banco central americanos têm sido os mais ativos na reação à crise financeira e no combate à recessão. Em especial, o banco central, o Federal Reserve, rompeu barreiras para lançar todos os tipos de medidas, ortodoxas e heterodoxas, novas e antigas, conhecidas e inéditas. A última foi colocar a taxa básica de juros em zero.

Reparem: se o juro é o preço do dinheiro e se esse juro primário é zero, então isso significa que o dinheiro sai de graça para os bancos. Ou seja, qualquer coisa que os bancos ganhem com esse dinheiro já é lucro.

E, entretanto, pode-se dizer que a crise continua mais grave lá nos Estados Unidos. A recessão avança e persistem os temores de coisa pior.

Pode-se, portanto, dizer que governo e Fed simplesmente falharam? Que suas políticas não funcionam?

E aqui estamos diante de um daqueles casos de resposta impossível. Para poder afirmar que o Fed falhou seria preciso saber como estariam as coisas se o banco não tivesse feito o que fez. E como saber isso?

Podemos, por outro lado, fazer aproximações. Uma delas: se com as centenas de bilhões de dólares que o governo e o Fed colocaram no mercado, ainda assim o sistema financeiro funciona precariamente, pode-se imaginar que teria simplesmente entrado em colapso sem essas medidas.

Muitos concordam com isso: que se conseguiu evitar o colapso que parecia iminente logo em seguida à quebra do Lehman Brothers. Aliás, muitos dizem também que se poderia ter evitado grande parte dessa história se o Lehman Brothers tivesse sido resgatado pelo governo. É uma boa hipótese, mas, de novo, como saber como teriam sido as coisas se tivessem sido diferentes?

Assim, melhor examinar as medidas e verificar quais são seus objetivos. Na última terça, o Fed não apenas colocou sua taxa básica na faixa entre 0 e 0,25% ao ano. Isso já foi mais do que se esperava. Mas o Fed foi além e, de certo modo, respondeu às críticas de que juro zero é o fim da linha. Sim, porque não há como reduzir mais a partir desse ponto.

Ou seja, se os bancos não emprestarem, não correrem risco mesmo tomando dinheiro de graça; se os consumidores não gastarem e se os empresários não investirem, quando vão voltar aos negócios?

Por isso mesmo, o Fed anunciou que os juros não são apenas zero. Serão assim por “algum tempo” – todos terão tempo para pensar e agir.

Mas o mais importante estava no restante do comunicado em que o Fed anunciou suas decisões. Disse que ia recorrer a todas as medidas para restabelecer o crédito e relacionou algumas delas.

É coisa para se notar. Em circunstâncias normais, bancos centrais são os guardiões da moeda e emprestam dinheiro apenas para os bancos comerciais que funcionam sob sua supervisão.

Pois bem, o Fed, que já está financiando bancos de investimentos e outras instituições, como companhias de seguro e de cartão de crédito, que já está comprando notas promissórias de empresas não financeiras e títulos de companhias que fazem empréstimos para estudantes, informou ainda que vão providenciar crédito para pequenas empresas e para famílias.

Se alguém dissesse, três meses atrás, que o BC americano faria isso, ninguém levaria a sério. Isso é inédito. A crise também é – e pelo menos se pode dizer que o Fed reagiu à altura. O grande erro seria não ter percebido o tamanho do atual problema e ter reagido com os instrumentos convencionais.

Mas a recessão avança assim mesmo.

E aqui, tudo o que se pode dizer é “calma, pessoal”. É preciso dar tempo. Primeiro, porque algumas medidas ainda não entraram em operação, algumas só serão viáveis no início de 2009.

Aliás. Ficou também para essa data o plano do presidente Barack Obama de pesados investimentos em infra-estrutura e novas tecnologias. Demora um pouco até que os canteiros de obra estejam instalados.

Mas, vamos pensar: as centenas de bilhões de dólares (mais de trilhão) do Fed para irrigar o crédito para bancos, empresas e pessoas; mais os 500 a 600 bilhões que Obama promete gastar para movimentar a economia real.

Gente, se isso tudo não funcionar, então só resta apagar a luz e emigrar para a Lua.

(O Globo, 18/12/2008)

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