EUA: a visão do patíbulo aguça a mente

Começamos com a lembrança de um grande brasileiro e incomparável economista, Roberto Campos, cuja frase do título tem sua marca registrada de humor cáustico e ferino, mas verdadeiro. Não raro é preciso chegar ao fundo do poço para se obter uma reação do setor político da sociedade.

Isso ocorre, finalmente, no Congresso americano, ao se aproximarem as bancadas republicana e democrata de um acordo sobre o controle estrutural da despesa pública, a fim de justificar a autorização para elevação do limite do endividamento federal.

Não tenho dúvida de que esse acordo emergirá, até porque seria crime de lesa-pátria os congressistas deixarem os EUA escorregarem para uma situação vexatória de default no pagamento de suas obrigações. Mas a queda-de-braço foi bonita e justificável, do lado republicano, para enquadrar a administração democrata de Obama a falar sério sobre o corte de despesas.

Os Estados Unidos viraram aquilo que se está chamando de uma “nação de assistidos” (em inglês, entitlement nation). De 1990 até hoje, os tais benefícios sociais em saúde, pensões e assistências sociais diversas, pularam de 42% para 59% da pizza total da despesa pública. Isso significou que, em dólares, os gastos com os assistidos, de todas as naturezas, dobraram na era Clinton – nos anos 90 – e duplicaram de novo na era Bush/Obama.

Enquanto isso, os ruinosos subsídios fiscais “para ricos”, aprovados por George W. Bush, destruíram o frágil equilíbrio orçamentário alcançado por Bill Clinton. Ricos e assalariados ganharam seu cala-boca. Para completar, Bush resolver abrir duas frentes de guerra, mais do que duplicando o gasto anual com “defesa” (entre aspas, pois deveria ser ataque).

A arrecadação de impostos acompanhou a evolução dos salários, que estagnou nos últimos seis anos. O resultado foi o maior déficit fiscal da história americana, maior do que na revolução da independência (George Washington), ou na Grande Depressão (F.D. Roosevelt) ou nas guerras mundiais. Os EUA cavaram para si um buraco fiscal muito fundo e difícil de ser fechado.

A opinião pública americana é majoritariamente favorável a se atacar o problema de frente. Eis a razão de os políticos terem ficado tão zelosos do equilíbrio fiscal, de uma hora para outra. A população já percebeu que o adiamento crônico do ajuste faz apenas aumentar a conta a pagar.

Não será fácil para Obama assinar um corte nos programas Medicare e Medicaid, após haver gasto seu capital político ampliando esses benefícios. Mas Obama tem razão quando pede aos republicanos que deixem de cinismo e olhem também para as injustificáveis isenções e privilégios aos que têm maior renda e riqueza.

Outro capítulo complicado para o presidente americano será a retirada das tropas de solos ocupados no Iraque e Afeganistão. Esse movimento tem que ser rápido, mas os EUA não dispõem de uma diplomacia de paz, para suceder ao seu braço de guerra.

Entre um trilhão daqui e outro dali, os EUA terão que fabricar uma economia de gastos futuros, nesta década, da ordem de US$ 4 trilhões, se não quiserem começar a ser desrespeitados no mundo financeiro. Não será fácil.

Fonte: Brasil Econômico, 22/07/2011

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