Exemplo de amor

A mitologia grega transmite na história de Narciso uma mensagem muito vigorosa. Apaixonou-se o jovem pela imagem que refletia no remanso de uma fonte e ali quedou-se a contemplá-la até definhar e morrer. Morreu de amor. De paixão por si. O nome desse trágico personagem é derivado do vocábulo grego narke, do qual se origina a palavra narcótico. Está, portanto, relacionado com entorpecimento e perda de sensibilidade em relação aos outros. Insuficiência para amar de verdade. Paixão de si. Narcisismo.

O arquétipo do ser humano pós-moderno se torna, cada vez mais, nestas preliminares do século 21, uma versão up-to-date de Narciso. Sua capacidade de amar termina no vestido ou no paletó, nos bens materiais de seu entorno, embargando-lhe relações que impliquem compromisso fora ou além do que vê diante do espelho. Vivemos num mundo tomado pelo amor de novela, de revista, com capítulos curtos, pot-pourri de impulsos, climas que “pintam”, que na teoria e na prática acabam sendo amor pelo avesso. O mais nobre sentimento humano vira sacola de supermercado, onde se enfiam prazer, desfrute, vaidade, conveniência, tesão, e objetos de uso provável, como pulseiras coloridas, pílulas e camisinhas de cores e sabores variados.

Dia desses, assistindo a um filme, demo-nos conta, minha mulher e eu, de que não se consegue ver cenas de uma ceia do Dia de Ação de Graças, tradicional feriado americano, em que os membros das famílias não se trinchem mais do que ao peito do peru. Sempre fica evidente o distanciamento, o alheamento, a fragilidade dos laços. E sempre terminam em brigas. As pessoas não conseguem mais suportar os respectivos egoísmos. O amor foi embora há muito tempo.

No entanto, o ser humano persiste em suas carências e potências amorosas. Na falta delas, fenece como Narciso à beira da fonte das possibilidades existenciais. Ora, leitores, as potências do amor implicam aquilo que as mães nos ensinam: amor afetivo e efetivo. Porque afetivo, aquece os corações. Porque efetivo, se realiza em realizar o bem dos filhos, mesmo com sacrifícios pessoais; e em encontrar, nisso, razão de ser e de felicidade. Amor que não resiste ao teste do sacrifício e não supera obstáculos não merece esse nome e muito provavelmente é mero uso do outro para bem de si mesmo. É egoísmo. É o definhamento para onde se arrasta mais alguém.

O Dia das Mães, que vivemos neste domingo, nos remete a uma reflexão sobre a extraordinária natureza do amor materno. Ele é exemplo de amor, mas é, também, modelo para todos os amores. Ali, no coração das mães, está a medida de não ter medidas para encontrar o próprio bem na realização do bem do outro. O poeta Carlos Drummond de Andrade sentenciou que “mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga”.

Esse amor, que tive a ventura de receber da minha mãe e a graça de contemplar no exemplo da minha mulher há 41 anos, é o que desejo e é o que de melhor posso desejar aos que me leem neste domingo.

(“Zero Hora”, 09/05/2010)

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