Existem pessoas contrárias aos meus valores; nem por isso irei suprimi-las

A direita aprendeu direitinho com a esquerda como fazer militância agressiva. Primeiro encontre um alvo: a exposição “Queermuseu” do Santander Cultural em Porto Alegre, que trazia obras sobre sexualidade e expressão de gênero. Invente acusações absurdas e sensacionalistas: a de que a mostra incentivava pedofilia e zoofilia. Alimente teorias da conspiração, como a de que os grandes bancos promovem valores “marxistas” para destruir a sociedade. Finalmente, chame atenção: denuncie, lance abaixo-assinado, boicote, faça protestos, promova a reação irrefletida das massas.

O Movimento Brasil Livre (MBL) está se especializando nesse tipo de atuação para ganhar espaço. Neste caso, apropriou-se dos protestos de grupos cristãos e bolsonaristas, aumentando seu alcance pelo Brasil. Entenderam a lógica de nossa democracia do grito: o poder não é da maioria, e sim das minorias organizadas e barulhentas. E se tem uma coisa que o MBL sabe fazer é barulho.

Não tem muito sentido debater os méritos do protesto. Achar que retratar algo num quadro equivale a promover sua prática é de uma indigência intelectual abaixo da crítica. Por esse critério, boicotemos Bosch, Goya, Manet; e Game of Thrones. Cada vez mais, nenhum evento cultural ocorre sem que alguma patrulha política venha encontrar problema, criar celeuma e tentar, pelo grito e pela acusação, intimidar os organizadores.

Infelizmente, funcionou. O Santander botou o rabo entre as pernas e encerrou a exposição. O medo fala alto, como falou em 2014 quando o banco demitiu uma funcionária que ousou apontar o efeito negativo de Dilma sobre a economia. Primeiro o PT, agora o MBL. Quando o mero fato de se sentir ofendido dá esse tipo de poder, pode apostar que as pessoas ficarão cada vez mais ofendidas com cada vez menos.

Há uma justiça cósmica aí. A mesma esquerda que faz protesto contra filmes, livros, músicas e até piadas consideradas ofensivas agora prova do seu próprio veneno. O saldo final, contudo, é negativo; a cultura sai perdendo. A boa arte não se pauta pela correção política. Ela por vezes choca a fé ou a moral vigente; tem bom ou mau gosto, atira para todo lado. A perda de uma produção cultural independente de agenda ideológica é um dos piores sintomas da polarização.

E a liberdade de expressão? O MBL não tem o direito de protestar? Claro que tem. Não estou propondo que protesto e boicote sejam proibidos. Estou apontando como esse uso militante deles leva à degeneração da cultura. Sem esquecer que, para alguns, a intenção é silenciar pela força mesmo. O blogueiro Felipe Diehl disse que o curador Gaudêncio Fidélis deveria ser preso. O deputado estadual Marcel Van Hattem (PP) quer que o Estado puna o Santander. Indo do discurso à prática, algum revoltado pichou uma agência bancária próxima. “Banco pedófilo”. Há relatos de agressão verbal a visitantes. Liberdade de expressão não é o forte dessa turma.

É possível ser liberal na economia e ter mentalidade autoritária. Precisamos, desesperadamente, cultivar valores liberais; ou, melhor dizendo, simplesmente maduros: sim, existem no mundo pessoas e obras contrárias aos meus valores, e nem por isso procurarei suprimi-las a todo custo. Vivemos melhor quando buscamos conhecer, criticar e conviver em paz.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 12/09/2017

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